GBP: Continuamos a prever uma apreciação de longo prazo da Libra
A Libra esterlina continuou a ser impulsionada quase inteiramente pelos desenvolvimentos em torno do Brexit nos últimos meses.
A incerteza sobre o futuro relacionamento do Reino Unido com a União Europeia e o receio de uma saída "sem acordo" pesaram muito sobre a Libra em 2018, arrastando a moeda para níveis cerca de 10% abaixo do Dólar americano nos últimos nove meses e gerando uma espiral de queda que desceu, em dezembro, até aos valores mais baixos desde abril de 2017. A moeda também sofreu em termos comerciais, particularmente depois de Theresa May ter adiado a votação do acordo do Brexit em dezembro.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, conseguiu concluir as negociações com a União Europeia com uma proposta de acordo para o Brexit de 585 páginas, no final de novembro, embora tenha adiado a votação do governo, de dezembro, admitindo que "seria rejeitada por uma margem significativa". Em vez disso, dirigiu-se novamente aos líderes europeus na esperança de encontrar garantias legais sobre a "barreira" da Irlanda do Norte, nomeadamente a garantia de que o Reino Unido não permaneceria na união aduaneira por um período indefinido.

As garantias que recebeu revelaram-se, no entanto, bastante inúteis depois de o acordo de saída de May ter sido rotundamente rejeitado na votação remarcada para meados de janeiro por 432 votos contra 202, a maior perda na história do governo do Reino Unido. Embora a derrota de Theresa May fosse largamente esperada e previsível, a magnitude da derrota ultrapassou todas as expectativas. A Libra esterlina, na verdade, subiu após o anúncio, o que, paradoxalmente, pode ser positivo para a moeda do Reino Unido, no curto prazo. Neste momento, há muito poucas hipóteses de algum acordo poder ser aprovado pelo parlamento a tempo da data de saída da EU, a 29 de março. Com a liderança conservadora, os líderes da UE e o próprio Partido Trabalhista a apelar vivamente contra um cenário "sem acordo", acreditamos que é altamente provável, pelo menos, uma prorrogação de três meses do artigo 50. Uma prorrogação do artigo 50 permite não só mais tempo para o Reino Unido e a União Europeia discutirem um acordo mais satisfatório, como também aumenta a possibilidade de um segundo referendo, o chamado “voto popular".

Com o plano de Theresa May aparentemente impraticável na sua forma atual, antevemos três cenários prováveis. De seguida, descrevemos esses cenários, a probabilidade que atribuímos a cada um e as nossas projeções para a reação imediata para o par GBP/USD:

1) Theresa May pede que o artigo 50 seja prorrogado (o que requer o consentimento de todos os 27 membros da UE). Isso permitiria mais tempo para renegociar e chegar a uma solução mais aceitável, capaz de manter as esperanças de o Reino Unido deixar a UE com um acordo de saída algures em 2019.

Probabilidade*: 60% Reação GBP/USD: 1,30

2) O Reino Unido sai da UE em 29 de março (ou em data posterior) sem um acordo aprovado. As probabilidades de isto acontecer, no entanto, caíram depois de o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) ter emitido o parecer de que o Reino Unido poderia revogar unilateralmente o artigo 50. Theresa May, o líder trabalhista Corbyn e a UE expressaram o desejo de evitar esse cenário. A reação imediata seria, a nosso ver, uma abrupta desvalorização da Libra em perto de 10%.

Probabilidade: 15% Reação GBP/USD: 1,18

3) É convocado um segundo referendo sobre a UE (o chamado “voto popular”). Outro referendo seria uma boa notícia para a Libra, dado que representa uma probabilidade de 50/50 de o Reino Unido permanecer na UE. A convocação de uma segunda consulta popular exigiria provavelmente a renúncia de Theresa May, que abafou repetidamente apelos a favor de outro referendo, ou eleições legislativas que resultem numa vitória trabalhista. Cerca de 70% dos membros do Partido Trabalhista expressaram o desejo de um voto popular, embora a posição oficial de Jeremy Corbyn ainda não esteja clara.

Probabilidade: 25% Reação GBP/USD: 1,36

Com a incerteza sobre o Brexit como pano de fundo, a economia britânica teve um desempenho fraco nos últimos meses. Após um terceiro trimestre encorajador, os últimos índices da atividade empresarial PMI caíram drasticamente. O tão importante PMI compósito, que representa o índice ponderado dos serviços, da indústria transformadora e da construção, regrediram para apenas 50,8 em novembro. Este valor está próximo do nível de 50, indicador de um crescimento nulo, e é o nível mais baixo desta medida desde julho de 2016 e das consequências imediatas do próprio referendo. O Banco de Inglaterra reduziu recentemente as suas previsões de crescimento, como resultado dos últimos dados, dizendo no final de dezembro que a economia do Reino Unido teria provavelmente crescido 0,2% no último trimestre de 2018.

Na sua última reunião, em dezembro, o Banco de Inglaterra votou por unanimidade a favor de manter as taxas de juro inalteradas, em 0,75%, afirmando que estava a aguardar maior clarificação sobre o Brexit antes de considerar o próximo movimento político. O governador Mark Carney afirmou que "as incertezas acrescidas quanto ao Brexit são evidentes numa série de mercados financeiros". Os decisores políticos reiteraram que estão prontos tanto para baixar como para subir as taxas, na eventualidade de uma saída desordenada e prejudicial da União Europeia. Se o Reino Unido deixar a UE sem acordo, a probabilidade de uma subida dos preços no meio de tarifas mais altas, bem como uma desaceleração do crescimento em consequência da queda da confiança das empresas e dos consumidores, colocariam o Banco de Inglaterra numa posição muito difícil.

A inflação global permanece acima da meta de 2% do Banco de Inglaterra, embora esteja numa trajetória de queda nos últimos treze meses, tendo chegado a 2,1% em dezembro, o seu nível mais baixo desde janeiro de 2017. A inflação acima da meta foi uma das principais razões por detrás da necessidade de taxas de juro mais altas, quando o Banco de Inglaterra aumentou as taxas, em agosto.

Isto poderia encorajar os decisores políticos a votar a favor de outra subida em 2019, caso o crescimento dos preços permaneça teimosamente acima da meta, embora isso esteja, obviamente, altamente dependente do Brexit. Vale a pena notar que o mercado de trabalho do Reino Unido continua a ter um bom desempenho. O desemprego está em mínimos de há 40 anos, enquanto os salários crescem ao ritmo mais rápido em quase uma década. No caso de um Brexit ordenado, vemos uma possibilidade razoável de o Banco de Inglaterra aumentar as taxas novamente no segundo semestre de 2019.

O destino da Libra depende quase inteiramente do Brexit. Acreditamos que um cenário "sem acordo" seria um desastre para a moeda britânica e o pior resultado possível, levando a uma forte desvalorização face a todas as outras moedas. Em contrapartida, a possibilidade de um segundo referendo e o adiamento ou revogação do artigo 50 seria um resultado muito positivo e levaria a uma forte recuperação da Libra. Acreditamos que a realidade estará algures no meio e prevemos uma saída algo atabalhoada e atrasada da União Europeia no final de 2019, para minimizar o forte risco de queda representado pelo cenário "sem acordo". Isto permitiria que a Libra recuperasse gradualmente dos atuais níveis subvalorizados.

Portanto, continuamos a prever uma apreciação de longo prazo da Libra face ao Dólar americano e ao Euro, o que tornaria aquela moeda uma das moedas com melhor desempenho do G10, este ano. No entanto, vale a pena reiterar que estamos a atravessar um território altamente incerto e inexplorado no que diz respeito ao Reino Unido, pelo que, fazer previsões precisas da moeda, é cada vez mais difícil.
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