Crise política em Itália afunda Euro

Enrique Díaz-Álvarez29/Mai/2018Análise do Mercado de Câmbios

No último fim-de-semana viveu-se um regresso às crises políticas do passado que, não há muitos anos, costumavam penalizar os ativos europeus. O Presidente italiano, Sergio Mattarella, rejeitou a nomeação do candidato da coligação populista para a pasta das Finanças, alegando que tal implicaria um risco de saída do Euro, sem um mandato democrático para o efeito, já que ambos os partidos populistas (Movimento 5 Estrelas e Liga) fizeram campanha em torno da permanência na moeda única.

Antes dos acontecimentos do fim-de-semana, a semana tinha assistido a uma interrupção na subida do Dólar e à queda acentuada das taxas associadas às obrigações norte-americanas, na sequência da publicação das atas, em tom moderado, da última reunião da Fed. Devido ao feriado de segunda-feira, em Londres e Nova Iorque, ainda não é totalmente perceptível o impacto da crise italiana nos ativos de risco a nível mundial.

Esta semana, a atenção dos mercados estará concentrada em ambos os lados do Atlântico. Na Europa, o risco global associado à situação política em Itália e em Espanha volta a ser um fator determinante na negociação do Euro. Nos Estados Unidos, aguarda-se a publicação de uma série de dados económicos de primeira linha, com especial destaque para os números da inflação e o relatório do mercado de trabalho de maio, na próxima sexta-feira.

EUR

Os resultados novamente abaixo do esperado nos índices PMI europeus foram relegados para segundo plano pelas notícias políticas. Além da crise institucional que se vai gerando em Itália, em Espanha o primeiro-ministro Mariano Rajoy enfrenta uma moção de censura, cujo desfecho é, para já, impossível de prever.

A explosão dos spreads das obrigações públicas italianas a curto prazo fez disparar este indicador-chave para o seu nível mais elevado em cinco anos, no espaço de uma semana de negociação. Embora o mandato para formar governo tenha sido entretanto concedido a uma figura consensual, o apoio parlamentar que reúne não será suficiente, sendo cada vez mais provável a realização de novas eleições. Tendo em conta que, em Itália, não existe apetência para uma saída do Euro, ou os partidos populistas renunciam explicitamente a qualquer passo nesse sentido, ou poderão ser castigados a nível eleitoral. Por agora, contudo, é a incerteza que reina e a moeda única vive momentos difíceis.

GBP

A Libra foi penalizada pela publicação de dados da inflação abaixo das expectativas e pela percepção de falta de progresso nas negociações do Brexit. Além disso, as notícias sobre a situação que se vive em Itália pressionaram o par GBP/USD, em baixa, mas sem ganhos expressivos da Libra face ao Euro. Tendo em conta que a agenda desta semana se resume à divulgação dos índices PMI de atividade empresarial, a Libra deverá reagir sobretudo a eventos externos, nomeadamente os muitos dados económicos a publicar para os EUA e os títulos noticiosos sobre a crise em Itália.

USD

As atas da última reunião da Reserva Federal, publicadas na passada semana, denotaram uma orientação mais moderada do que o mercado esperava, deixando transparecer que os responsáveis da Fed não se importavam de aceitar um excesso temporário na inflação total e que não existia qualquer pressão no sentido de acelerar o ritmo previsto dos aumentos das taxas de juro. Esta perspetiva desencadeou uma recuperação dos títulos do Tesouro, que ganhou força com as notícias sobre a situação política na Zona Euro, fazendo as taxas de juro da dívida a 10 anos regressar abaixo da barreira psicológica de 3%. Este contexto veio travar a valorização do Dólar face à maior parte das principais moedas não europeias, as quais mantiveram um desempenho fraco durante o fim-de-semana, com a deterioração da situação em Itália. As atenções viram-se agora para a publicação de dados importantes, como os números da inflação, na quinta-feira, e o relatório mensal do mercado de trabalho, na sexta-feira.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.