Dólar em dificuldades apesar de inflação acima das expectativas nos EUA

Enrique Díaz-Álvarez19/Feb/2018Análise do Mercado de Câmbios

Na semana que passou assistiu-se a alguma volatilidade na negociação dos mercados cambiais. A surpresa positiva nos dados da inflação norte-americana teve um efeito contraintuitivo sobre o Dólar, que sofreu uma forte queda para mínimos de vários anos, seguida de uma subida igualmente acentuada, terminando a semana a perder 1,5% face às moedas europeias. Os mercados cambiais produziram taxas menos previsíveis, tendo em conta que algumas correlações habituais entre divisas e classes de ativos parecem ter-se quebrado, sendo a mais evidente aquela entre os juros (yields) da dívida norte-americana e o Dólar dos EUA. Este aparente desajustamento deve ser observado com atenção e confirmado.

Em mais uma semana de poucos dados novos, os operadores dos mercados cambiais vão estar especialmente atentos à publicação das atas da reunião de janeiro da Reserva Federal, na quarta-feira, e às da última reunião do Banco Central Europeu, na quinta-feira.

EUR

À falta de divulgação de dados de relevo, notícias políticas ou desenvolvimentos na política monetária, o Euro negociou, em grande medida, estacionário face a todas as demais moedas europeias, e valorizou com alguma volatilidade face ao Dólar, em linha com as restantes moedas principais a nível mundial. Esta semana, a publicação das atas da última reunião do BCE e os números provisórios dos indicadores de atividade empresarial PMI relativos a fevereiro (quinta-feira) não deverão alterar de forma significativa o cenário de forte crescimento na Zona Euro e de futura saída cautelosa da política de taxas de juro negativas.

GBP

Na passada semana, os dados publicados para o Reino Unido foram mistos. Por um lado, a inflação manteve-se elevada, na ordem dos 3%, sendo esta a única grande economia em que a inflação permanece consistentemente acima da meta fixada pelo banco central. Por outro lado, as vendas a retalho do mês de janeiro subiram 1,5% em relação ao ano anterior, ficando assim aquém das expectativas do mercado. Tendo em conta que, a nosso ver, os dados da inflação são consideravelmente mais relevantes do que os números voláteis das vendas a retalho, continuamos a apostar numa subida das taxas de juro do Banco de Inglaterra, na sua próxima reunião.

A semana que se inicia será relativamente agitada para a Libra. Além da publicação do relatório do mercado de trabalho, na quarta-feira, aguarda-se o depoimento de vários responsáveis do Banco de Inglaterra perante a Comissão Parlamentar do Tesouro.

USD

Os dados da inflação de janeiro devem ter reconfortado os responsáveis de política monetária da Reserva Federal, ao confirmarem a ideia veiculada pelo relatório do emprego de que o mercado de trabalho, com pouca folga, está finalmente a surtir efeito no crescimento dos salários e dos preços. O Dólar, todavia, não beneficiou destas notícias, já que os mercados foram guiados sobretudo por fatores técnicos e o alívio resultante da recuperação dos preços das acções, após a semana anterior, acabou por se desvanecer. Numa semana de agenda pouco preenchida, a expectativa é de que a relação entre o Dólar dos EUA e os juros da dívida norte-americana se volte a afirmar e dê novo impulso à subida do Dólar iniciada na passada sexta-feira.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.