Euro dispara com publicação das atas do BCE

Enrique Díaz-Álvarez15/Jan/2018Análise do Mercado de Câmbios

O principal acontecimento da semana não dececionou. A publicação das atas da reunião de dezembro do Banco Central Europeu (BCE) deu a perceber que o Conselho de Governadores se inclina agora para pôr fim às compras mensais de obrigações públicas, após ter terminado o atual período de alargamento, em setembro do corrente ano. A notícia de que a Alemanha chegou a um acordo de princípio para uma Grande Coligação governamental veio ajudar o movimento de forte alta do Euro, que acabou por impulsionar a subida de todas as moedas europeias.

Esta semana, a atenção deverá centrar-se nas moedas dos mercados emergentes. O dia de quinta-feira concentra um número invulgar de reuniões dos bancos centrais: o Banco Central da Turquia, o Reserve Board da África do Sul, o Banco da Coreia e o Banco da Indonésia. Já para as moedas do G10 antecipa-se uma semana relativamente tranquila.

EUR

As atas da reunião de dezembro do BCE revelaram uma confiança crescente nas perspetivas económicas para a Zona Euro. Numa declaração um pouco mais controversa, lê-se que «em última instância, uma maior absorção da folga deverá conduzir a pressões de subida nos salários e nos preços» – algo que ainda não transparece nos números da inflação subjacente, que exclui os componentes mais voláteis da energia e da alimentação. Esta taxa de inflação permaneceu abaixo de 1% nos dados de dezembro, não dando qualquer sinal de que a conjuntura económica positiva esteja a criar pressão sobre os salários ou os preços. Ainda assim, os mercados revalorizaram a antecipação do início dos aumentos de taxas de juro do BCE em 2018, impulsionando a moeda única para novos máximos dos últimos três anos.

GBP

A Libra Esterlina conseguiu acompanhar a subida avassaladora do Euro face ao Dólar dos EUA. Os dados positivos da indústria transformadora e das vendas a retalho aliviaram os receios de abrandamento da economia britânica e colocaram ainda mais em destaque o Banco de Inglaterra. Além disso, a Libra beneficiou da notícia de que a Espanha e a Holanda estavam a pressionar a favor de um Brexit “suave” no quadro das negociações. Esta terça-feira é divulgado o relatório decisivo, com os dados da inflação de dezembro. Uma surpresa pela positiva obrigaria o mercado a revalorizar as expectativas de aumento das taxas de juro e faria a Libra atingir novos máximos do período pós-Brexit.

USD

A semana passada proporcionou algumas surpresas bastante positivas nos dados económicos divulgados para os EUA. As vendas a retalho continuam a crescer a um ritmo muito saudável, com uma taxa anualizada de 6%. Mais importante é o facto de o mercado de trabalho, com pouca folga, estar finalmente a impulsionar a inflação, tendo a inflação subjacente de dezembro subido para uma taxa anualizada de 1,8%, não muito longe da meta fixada pela Reserva Federal (Fed). O mercado optou por ignorar estes desenvolvimentos positivos e o Dólar passou por momentos difíceis, enquanto os operadores do mercado davam maior destaque à mudança de linguagem evidenciada nas atas da reunião do BCE. No entanto, as expectativas apontam para quatro aumentos das taxas de juro da Fed e nenhum das taxas de juro do BCE. Dado o diferencial de taxas entre os dois lados do Atlântico, no curto prazo, dificilmente se percebe como o Euro poderá continuar a subir, em especial tendo com conta as posições extraordinariamente “esticadas” dos operadores de mercado, que assumiram de forma esmagadora posições longas nesta divisa.

Print

Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.