Reserva Federal deverá manter taxas inalteradas, deixando em aberto possibilidade de aumento em dezembro

Enrique Díaz-Álvarez19/Sep/2017Análise do Mercado de Câmbios

Na quarta-feira, no fim da reunião de dois dias sobre política monetária, a Reserva Federal vai anunciar a sua decisão relativamente às taxas de juro. Embora seja quase certo que os responsáveis da autoridade monetária dos EUA mantenham as taxas inalteradas, os investidores esperam obter mais certezas quanto ao ritmo de futuros aumentos.

Na sequência da reunião de julho da Reserva Federal, em que se decidiu manter a política monetária norte-americana inalterada, reconhecendo simultaneamente debilidades na inflação do país, o Dólar dos EUA caiu acentuadamente. O Comité FOMC mudou de discurso em relação ao aumento dos preços no consumidor, referindo que a taxa de inflação global se mantinha “abaixo” da meta de 2%, em comparação com a expressão “um pouco abaixo”, utilizada no comunicado da reunião de junho.

Os operadores do mercado cambial deduziram uma inflexão mais expansionista por parte da Fed, recuando nas expectativas de medidas adicionais de redução dos estímulos monetários e descontando a possibilidade de um terceiro aumento das taxas em dezembro deste ano. A redução das expectativas de novos aumentos das taxas em 2017, aliada à incapacidade do Presidente Trump para implementar mudanças significativas nas políticas em vigor nos EUA, desencadeou um forte movimento de venda (sell-off) na divisa norte-americana. No início de setembro, o Dólar dos EUA caiu para mínimos de vinte meses, tendo já perdido mais de 10% do seu valor desde o máximo atingido em dezembro de 2016.

Face à avaliação relativamente menos otimista da economia norte-americana, o Comité FOMC manteve as projeções das taxas de juro praticamente inalteradas no último gráfico “dot plot”. O mercado parece continuar a defender a possibilidade de um novo aumento das taxas ainda este ano, enquanto as estimativas da Fed atribuem cerca de 47% de probabilidades de uma alteração antes do final do ano.

Dinâmica de abrandamento da inflação

Os dados económicos divulgados para os EUA desde a publicação do último gráfico “dot plot” da Fed têm sido mistos. A inflação tem vindo a desacelerar desde o início do ano, quando subiu para máximos de cinco anos, muito perto dos 3%, tendo recuado para níveis abaixo da meta fixada pelo banco central nos últimos quatro meses. Por outro lado, a taxa de inflação global subiu ligeiramente para 1,9% em agosto, uma tendência que – a continuar – poderá dar margem à Fed para alterar a sua política em dezembro.

O crescimento da economia também surpreendeu pela positiva e foi revisto para 3% no segundo trimestre, ou seja, a taxa mais elevada dos últimos três anos. No entanto, a Fed vai mostrar-se cautelosa em relação aos efeitos devastadores dos furacões Harvey e Irma na economia, o que deverá implicar um risco potencialmente significativo de agravamento do cenário económico, com um custo estimado entre 70 e 300 mil milhões de dólares (cerca de 0,5‑1,5% do PIB norte-americano). O impacto negativo das más condições meteorológicas já se fez notar nos dados mais recentes de pedidos de subsídio de desemprego, que atingiram máximos de dois anos no início deste mês.

O que esperar da Fed na quarta-feira

Em nossa opinião, a Fed deverá manter as taxas de juro inalteradas na reunião de quarta-feira, e o principal fator a pesar na evolução do Dólar deverá ser o gráfico “dot plot”, que mostra as expectativas de cada membro do Comité para as taxas de juro, no final de cada ano. Na sequência do recente abrandamento da inflação, a projeção média de futuros aumentos das taxas de juro poderá ser ligeiramente revista em baixa, o que poderá forçar uma descida do Dólar. Os prejuízos poderão, ainda assim, ser atenuados por um eventual discurso de otimismo sobre as perspetivas para a inflação e de tolerância com os riscos de agravamento das perspetivas de crescimento económico. Espera-se que a Presidente da Fed, Janet Yellen, mantenha firmemente em aberto a possibilidade de uma subida das taxas em dezembro.

Mesmo que seja anunciada uma revisão em baixa relativamente acentuada na projeção de subidas das taxas, ainda existe uma divergência notória entre aquilo que o mercado está a descontar e as expectativas da Fed para futuros aumentos dos juros. Esta situação é, a nosso ver, insustentável e ainda esperamos assistir, no médio prazo, a um recuo do Dólar face à maioria das principais divisas, assim que as expectativas do mercado se alinharem com as expectativas da Fed.

Além do resultado da votação sobre as taxas de juro, a Fed deverá anunciar o início do processo de redução do elevado valor do seu balanço, acumulado em grande parte durante o programa de estímulos monetários deste banco central. Este processo implica a redução gradual do montante de 4,5 mil milhões de dólares atualmente investidos em obrigações ao longo dos próximos anos. Consideramos, todavia, que se trata de uma decisão sobretudo técnica, com impacto reduzido nas taxas de juro ou nos mercados cambiais.

 

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.