Euro ignora alerta do BCE e termina semana quase em máximos

Enrique Díaz-Álvarez11/Sep/2017Análise do Mercado de Câmbios

O evento crítico da semana passada desenrolou-se sensivelmente de acordo com as expectativas do consenso. O Banco Central Europeu (BCE) adiou a decisão sobre a redução gradual do programa de compra de obrigações soberanas para a reunião de outubro. Além disso, reviu ligeiramente em alta a previsão de crescimento do PIB no curto prazo e, o que é mais importante, reviu em baixa a projeção para a inflação. O desenvolvimento mais relevante foi o modo veemente como o Presidente Mario Draghi chamou a atenção para a valorização do Euro. Um alerta que, todavia, passou despercebido num contexto em que a apreensão com a Coreia do Norte, o impacto económico dos furacões e as preocupações políticas forçaram a queda do Dólar face a todas as principais divisas, com exceção do Won sul-coreano.

O principal evento desta semana é a reunião do Banco de Inglaterra, na quinta-feira. Ainda que não se perspetive qualquer intervenção, espera-se um debate aceso sobre a natureza da trajetória da inflação no Reino Unido, acima do seu nível tendencial, e a melhor estratégia para lhe fazer face.

EUR

O BCE confirmou, na semana passada, as expectativas quase universais ao adiar a decisão sobre o programa de compra de ativos para a reunião de outubro. No entanto, tanto o comunicado emitido pelo Conselho de Governadores como a conferência de imprensa do Presidente Mario Draghi, após a reunião, surpreenderam com uma menção explícita à força do Euro enquanto fonte de incerteza e obstáculo sério à consecução da meta fixada para a inflação. As próprias previsões (a nosso ver, otimistas) do BCE reconhecem que a inflação no prazo mais longo da projeção (finais de 2019) deverá manter-se consideravelmente abaixo da meta. Por ora, os mercados estão a ignorar as preocupações do BCE relativamente à apreciação do Euro, mas é de esperar que surjam mais declarações de responsáveis do banco central, nas próximas semanas, na tentativa de manter a pressão de descida sobre a moeda única. Enquanto o Euro permanecer acima dos 1,20 Dólares é muito pouco provável que se assista a uma alteração significativa na orientação da política monetária.

GBP

Na semana passada, a Libra viveu um raro período de ganhos face ao Euro e ao Dólar dos EUA, ao que ajudou, sem dúvida, a publicação de dados positivos sobre o sector da indústria transformadora e a balança comercial. Consideramos, no entanto, que os mercados começam a descontar a possibilidade de as taxas de juro do Reino Unido aumentarem mais cedo do que o previsto. A recente queda registada no índice da Libra face ao conjunto das divisas dos seus parceiros comerciais irá pressionar uma subida da inflação, que já se encontra acima da meta fixada – algo que poderá ser comprovado já nesta terça-feira, quando forem divulgados os dados da inflação de agosto. A erosão dos salários reais, decorrente da subida da inflação, irá, sem dúvida, reforçar os argumentos dos membros do Comité de Política Monetária, que defendem o aumento das taxas de juro, sendo de esperar que o recente movimento de valorização da Libra face ao Euro continue.

USD

As tensões com a Coreia do Norte e o furacão Irma levaram os investidores a refugiar-se na segurança das obrigações do Tesouro, com a consequente descida das yields e pressão sobre o Dólar. Os discursos com uma orientação relativamente expansionista por parte de responsáveis da Reserva Federal também não ajudaram a moeda norte-americana. Esta semana, o Dólar deverá negociar em reação aos dados da inflação a publicar na próxima terça-feira e às primeiras estimativas do impacto do furacão Irma sobre o crescimento económico a curto prazo. De notar ainda que as expectativas sobre alterações significativas à política fiscal são agora tão reduzidas que qualquer indício de acordo no Congresso poderá ter um efeito muito positivo na trajetória do Dólar.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.