Mario Draghi adia tomada de decisão sobre programa de estímulos para outubro

Enrique Díaz-Álvarez08/Sep/2017Análise do Mercado de Câmbios

Esta quinta-feira, 7 de setembro, o Euro valorizou para um máximo dos últimos dez dias e voltou a negociar acima dos 1,20 Dólares, depois de Mario Draghi, Presidente do Banco Central Europeu (BCE), ter anunciado a manutenção da política monetária inalterada e a revisão em alta da previsão de crescimento económico para 2017.

A autoridade monetária da Zona Euro manteve as taxas de juro inalteradas, não introduzindo qualquer alteração no discurso da reunião anterior, em julho, e reiterando, novamente, a possibilidade de aumento, se necessário, do programa de estímulos, tanto a nível de montantes como de prazo. Tal como havíamos antecipado, Draghi não anunciou o início da redução gradual do programa de compra de ativos, não obstante a alusão que foi feita, na reunião do passado mês de julho, a uma discussão sobre as medidas de estímulo “no outono”. Mais uma vez, as suas palavras denotaram, de um modo geral, um tom bastante moderado, sem acrescentar nada de relevante. Draghi referiu a necessidade de paciência e persistência com o programa de estímulos monetários, que ainda não se traduziu numa dinâmica de subida da inflação. Anunciou, igualmente, uma revisão ligeiramente em baixa das projeções para a inflação em 2018 e 2019, refletindo assim a recente apreciação do Euro. Por outro lado, o Conselho de Governadores reviu em alta a sua previsão de crescimento do PIB em 2017, por uma margem bastante considerável de 0,3%, para 2,2%, o que talvez se possa atribuir, em grande medida, à valorização do Euro. A moeda chegou mesmo a negociar a valorizar 1% no dia em que Draghi falou, embora tenha vindo a diminuir durante a conferência de imprensa, tendo terminado apenas ligeiramente acima do ponto em que havia começado o dia.

Surpreendente foi o facto de o mercado reagir de maneira relativamente calma aos comentários de Mario Draghi a propósito da força do Euro, cujos riscos foram mencionados por diversas vezes durante a conferência de imprensa. Draghi reconheceu que os recentes movimentos no mercado cambial, com a moeda única a atingir, no mês passado, o seu nível mais elevado desde janeiro de 2015, requerem monitorização e constituem uma “fonte de incerteza”. A notícia que circulou na semana passada sobre a crescente preocupação dos responsáveis do BCE com a força do Euro pode explicar, em grande medida, a reação limitada dos mercados nesta quinta-feira, visto que os mesmos já estariam, ao que parece, a descontar grande parte destes comentários sobre a evolução da moeda. Não obstante a melhoria evidente das condições económicas, a relutância do BCE em comprometer-se com uma política menos expansionista sugere que os responsáveis da autoridade monetária europeia estão cautelosos em relação à trajetória da inflação persistentemente abaixo da meta definida para a área do Euro. A inflação subjacente, um indicador a que o BCE está especialmente atento, ainda não evidenciou qualquer sinal significativo de subida, voltando a registar apenas 1,2% em agosto (Figura 2). Continuamos a defender a ideia de que ainda teremos de assistir a uma subida da inflação subjacente antes de o BCE anunciar a retirada gradual das medidas de estímulo à economia.

Aguardamos agora, com expectativa, a próxima reunião do BCE em outubro, na qual Draghi admitiu a possibilidade de serem tomadas “muitas das decisões” sobre o programa de estímulos monetários. Com o fim do programa de compra de ativos previsto para finais de dezembro, espera-se que Draghi anuncie a extensão do programa de estímulos para 2018, fazendo depender de números mais fortes da inflação subjacente os planos para iniciar a sua retirada em janeiro, processo que implicará a diminuição gradual do montante dos ativos que o banco central adquire mensalmente para um nível inferior aos atuais 60 mil milhões de euros.

Tendo em conta que a política monetária na Zona Euro mantém uma orientação bastante acomodatícia e que o mercado – em nosso entender – continua a subestimar o ritmo dos aumentos de taxas de juro da Reserva Federal norte-americana, consideramos que os riscos para o Euro ainda tendem para uma evolução negativa.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.