BCE deverá mostrar-se cauteloso sobre política monetária, apesar da subida da inflação

Enrique Díaz-Álvarez05/Sep/2017Análise do Mercado de Câmbios

A reunião do Banco Central Europeu (BCE), que terá lugar esta quinta-feira em Frankfurt, está a ganhar contornos de um grande evento de risco nos mercados cambiais.

Na reunião de julho do BCE, a postura geral assumida na declaração do banco central, e inclusivamente na conferência de imprensa de Mario Draghi, evidenciou uma orientação bastante expansionista. Draghi destacou a necessidade de os responsáveis pela política monetária serem “persistentes” e “pacientes” com as medidas de estímulo monetário existentes, admitindo que a expansão económica em curso ainda tem de se traduzir numa dinâmica de inflação mais forte.

Os operadores dos mercados cambiais concluíram destas palavras que a discussão sobre o programa de estímulos monetários teria lugar “no outono”, alimentando a especulação de que Draghi aproveitaria a reunião de setembro para anunciar o fim gradual das compras de ativos, o que implicaria a redução do montante dos ativos que o banco central adquire mensalmente para um nível inferior aos atuais 60 mil milhões de euros.

As condições económicas da Zona Euro parecem sugerir a necessidade de um debate sobre uma política monetária menos expansionista. A expansão da economia da Zona Euro evoluiu, no segundo trimestre, ao ritmo mais rápido desde 2011, em termos anualizados. O desemprego não se alterou em julho e está agora no seu nível mais baixo desde fevereiro de 2009, contribuindo assim para estimular um crescimento cada vez mais forte. Em agosto, a inflação global subiu inesperadamente de 1,3%, o nível mais elevado desde abril, para 1,5% em termos homólogos (Figura 1). Por outro lado, a taxa de inflação subjacente, que exclui as componentes mais voláteis de alimentação e energia, vigiada atentamente pelo BCE, manteve-se inalterada em apenas 1,2%.

Não obstante a clara melhoria das condições económicas na Zona Euro, o Conselho de Governadores continua a destacar a necessidade de manter uma política monetária flexível. Nas mais recentes comunicações, alegou que uma convergência da taxa de inflação com a meta fixada “apenas acontecerá gradualmente e mantém-se dependente de um grau considerável de política monetária acomodatícia”. O próprio Mario Draghi também adotou um tom bastante cauteloso na sua intervenção na conferência de Jackson Hole, nos Estados Unidos, no fim de agosto. Torna-se assim evidente que os responsáveis da autoridade monetária da Zona Euro não vão alterar a sua política tão cedo. Como já temos vindo a dizer nos últimos meses, teremos de ver uma recuperação mais sustentada da inflação subjacente até à meta “próxima, mas abaixo de 2%”, fixada pelo BCE, antes de o banco central anunciar o início de uma redução gradual do programa de compra de ativos.

Além disso, os Governadores do banco central estarão, sem dúvida, cautelosos em relação à recente valorização do Euro e cresce a especulação de que Mario Draghi vai falar sobre a força da moeda única para tentar acalmar a reação do mercado e controlar, no imediato, a recente apreciação desta divisa. O Euro tem apresentado um comportamento verdadeiramente impressionante desde o início de 2017, tendo acumulado uma valorização de quase 15% e quebrado em alta, ainda que por pouco tempo, a barreira psicológica de 1.20 face ao Dólar dos EUA, pela primeira vez desde janeiro de 2015 (Figura 2). Assiste-se também a uma inversão bastante radical nas posições curtas do Euro. O BCE já tinha feito alusão à sua preferência por uma moeda mais fraca, pelo que não nos surpreenderia se Mario Draghi fizesse referência à taxa de câmbio durante a conferência de imprensa.

Consideramos que existem boas probabilidades de o Banco Central Europeu dececionar o mercado na sua reunião desta semana. Num cenário de taxa de inflação ainda abaixo da meta e níveis elevados do Euro pelos mais recentes padrões, espera-se uma declaração ligeiramente mais cautelosa, que deixará a porta aberta a um anúncio mais significativo sobre a política monetária na reunião de outubro. Em nosso entender, os riscos para o Euro tendem para uma evolução negativa. Se Mario Draghi não fizer, no mínimo, uma alusão à possibilidade de redução gradual das medidas de estímulo à economia, é possível que a moeda única seja alvo de um movimento considerável de vendas (sell-off), em especial tendo em conta os níveis muito elevados gerados pelo mercado desde a reunião de julho do BCE.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.