Libra e Dólar recuperam enquanto a força do Euro preocupa BCE

Enrique Díaz-Álvarez04/Sep/2017Análise do Mercado de Câmbios

Na semana passada, a valorização inexorável do Euro face a quase todas as principais divisas foi finalmente interrompida. Durante a preparação da reunião desta semana, alguns responsáveis do BCE deixaram transparecer o seu desagrado quanto ao ritmo de tal apreciação, que levou a moeda única a atingir máximos de três anos face ao cabaz ponderado de moedas de parceiros comerciais. Tais declarações fizeram o Euro descer dos níveis elevados que, na passada terça-feira, ultrapassaram mesmo a barreira psicológica de 1.20. O relatório algo dececionante do mercado de trabalho norte-americano não foi suficiente para pôr fim ao forte movimento de venda e a moeda única terminou a semana quase 1,5% abaixo dos valores máximos face ao cabaz ponderado de moedas de parceiros comerciais.

A Libra foi a moeda mais beneficiada do movimento contra-tendência, sustentada pela fraqueza do Euro e pelos fortes dados publicados sobre o sector industrial no Reino Unido.

Esta semana, a negociação nos mercados cambiais será dominada pelo grande evento de risco a decorrer na quinta-feira: a reunião do BCE. As expectativas da maior parte dos analistas apontam para a decisão de prolongar o programa de estímulos monetários, embora a um ritmo mais reduzido até outubro ou dezembro, o que poderá contribuir para a descida do Euro.

EUR

Os dados da inflação da Zona Euro no seu conjunto confirmam a nossa perspetiva de que a força da economia está a exercer pouca pressão de subida na inflação, que continua muito aquém das previsões do BCE e da meta “próxima mas abaixo de 2%”, fixada pelo banco central. A subida rápida do Euro apenas reforçará essa preocupação. Em relação à reunião decisiva do BCE desta semana, a perspetiva do consenso exclui, quase por completo, o anúncio da retirada gradual do programa de estímulos à economia. Com efeito, na passada sexta-feira, fontes do BCE sugeriram que o mais provável seria um prolongamento do programa até dezembro, e não até outubro. No entanto, o grande debate de quinta-feira deverá girar em torno das projeções sobre a inflação. A nossa expectativa aponta para uma revisão em baixa significativa das previsões do BCE para a inflação, sendo muito provável que essa revisão seja explicitamente atribuída à força da moeda, tanto no registo escrito da reunião como na conferência de imprensa do Presidente Draghi. Os riscos desta reunião para o Euro são, por isso, tendencialmente de descida.

GBP

Não há qualquer melhoria a relatar nas notícias sobre as negociações do Brexit. No entanto, os níveis atuais da Libra, em mínimos históricos face ao cabaz ponderado de moedas de parceiros comerciais, estão já a descontar praticamente o pior cenário possível. Os mercados parecem concordar que este movimento tem sido excessivo. Assim, a publicação de dados positivos sobre a atividade do sector industrial, aliada a relatos sobre as preocupações do BCE com a força do Euro, foram suficientes para lançar a Libra no seu melhor desempenho semanal dos últimos meses.

USD

Os dados dececionantes do relatório do mercado de trabalho divulgado na semana passada vêm certamente dar força aos membros da Reserva Federal que defendem o adiamento de mais subidas das taxas de juro até 2018. A criação de emprego nos EUA, em termos líquidos, ficou aquém das expectativas, embora mantenha um ritmo muito positivo de 156.000 postos de trabalho por mês. Outros elementos que também ficaram um pouco abaixo das estimativas foram, nomeadamente, o crescimento do salário-hora (2,5%) e o desemprego (com uma ligeira subida para 4,4%). No entanto, os mercados cambiais ignoraram, em grande medida, a publicação de tais dados, dando mais atenção a notícias sobre desenvolvimentos na questão dos cortes de impostos nos EUA e sobre as preocupações manifestadas por responsáveis do BCE quanto à força do Euro.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.