Dólar em queda penalizado por problemas políticos nos EUA

Enrique Díaz-Álvarez24/Jul/2017Análise do Mercado de Câmbios

Foi mais uma semana muito difícil para o Dólar. Os mercados cambiais decidiram ignorar o tom brando da mensagem do BCE, na quinta-feira, e concentraram-se antes na saga interminável do escândalo Trump-Rússia e na aparente incapacidade do Partido Republicano em fazer aprovar a sua agenda política. A moeda norte-americana terminou a semana a perder face a todas as divisas do G10, à exceção da Libra. A Libra teve de enfrentar os seus próprios problemas políticos, enquanto as negociações do Brexit parecem arrastar-se e cada vez mais instituições financeiras anunciam planos de deslocação de serviços para fora da praça londrina.

Esta quarta-feira tem lugar a reunião de julho da Reserva Federal. Muito embora não se espere qualquer alteração de política monetária, será provavelmente a última oportunidade de um banco central importante fornecer orientações aos mercados antes do habitual período de férias de agosto. Esta reunião tem uma importância acrescida, tendo em conta a grande divergência que existe neste momento entre as expectativas dos mercados de taxas de juro e as comunicações da Fed sobre as probabilidades de um novo aumento das taxas em 2017.

EUR

Na reunião do BCE da última quinta-feira, o Presidente Mario Draghi manteve o discurso brando, destacando a necessidade de o banco central se manter “persistente” e “paciente” no que diz respeito ao programa de estímulos monetários em grande escala. Draghi reiterou que os riscos para o crescimento da Zona Euro se mantêm “em geral equilibrados”, sublinhando que a inflação subjacente ainda não deu sinais convincentes de recuperação e que continua a ser necessário “um grau substancial de estímulos”. O Conselho de Governadores foi igualmente unânime na decisão de deixar a orientação de política monetária inalterada.

Foram declarações bastante cautelosas, contrabalançadas pela sugestão de que o BCE ainda não está muito preocupado com a força crescente do Euro. No entanto, qualquer impacto negativo acabou por ser compensado por novas revelações sobre a investigação em curso ao caso Trump-Rússia, do outro lado do Atlântico, pelo que a fraqueza do Euro face ao Dólar foi de curta duração.

Esta semana são publicados os índices de atividade empresarial de julho para a Zona Euro. São os indicadores avançados mais exatos sobre a economia europeia. O consenso (em que nos incluímos) espera que se mantenham em níveis elevados, compatíveis com taxas de crescimento iguais ou superiores a 2%. No entanto, a divulgação destes dados deverá ser relegada para segundo plano pela reunião do Comité FOMC norte-americano, na quarta-feira.

GBP

Os dados da inflação de junho para o Reino Unido, publicados na passada terça-feira, acentuaram o cenário de debilidade da Libra. A magnitude da descida, 0,3% na inflação global e 0,2% na inflação subjacente, foi bastante invulgar e vem reforçar a ideia de que os efeitos da fraqueza da divisa atingiram o seu máximo. Esta situação poderá implicar um atraso no ciclo de aumento das taxas de juro do Banco de Inglaterra. As notícias de que as negociações do Brexit estão a avançar a um ritmo muito lento e os anúncios de bancos sobre a deslocação dos respetivos serviços para fora do Reino Unido contribuíram para o agravamento da queda, tendo a Libra terminado a semana com o pior desempenho entre as principais moedas.

USD

A publicação de dados mistos, sobretudo de segunda linha, nos EUA, foi completamente suplantada pelo desenvolvimento de uma crise política sobre as alegadas ligações entre a Rússia e a Administração Trump e o colapso dos esforços republicanos para revogar a lei “Obamacare”. A queda do Dólar foi acentuada num contexto em que os mercados parecem já ter afastado qualquer possibilidade de cortes de impostos ou de investimento em infraestruturas, ainda este ano.

Na expectativa da reunião da Reserva Federal desta quarta-feira, os operadores do mercado assumem posições excessivas, o Dólar continua em mínimos do ano e subsiste uma visão geral bastante pessimista sobre as perspetivas económicas para os EUA e a possibilidade de novos aumentos das taxas de juro. Espera-se, por isso, muita volatilidade para quarta-feira à tarde.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.