Dólar penalizado por dados abaixo das estimativas e discurso de Yellen; moedas dos mercados emergentes disparam

Enrique Díaz-Álvarez17/Jul/2017Análise do Mercado de Câmbios

Os dados mistos divulgados na semana passada, tanto no plano macroeconómico como no plano da política monetária, não foram favoráveis ao Dólar dos EUA. Mais concretamente, o tom relativamente brando do discurso semestral da Presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, no Congresso norte-americano colocou o Dólar sob pressão, na passada terça-feira. A queda intensificou-se na sexta-feira, após a publicação dos dados da inflação nos EUA, referentes ao mês de junho, que ficaram aquém das expectativas, fazendo os mercados pôr em causa a possibilidade de novos aumentos das taxas de juro, ainda este ano.

Invulgar foi o facto de a fraqueza do Dólar, na semana passada, não ter sido acompanhada da força do Euro. A moeda única mal conseguiu valorizar e perdeu face a todas as principais divisas, à exceção do Dólar. De referir que os especuladores parecem ter assumido posições extremamente longas no Euro. Nas moedas dos mercados emergentes, a trajetória foi exatamente o inverso. O recuo nas taxas das obrigações norte-americanas lançou os investidores na procura de rendibilidades mais elevadas ainda disponíveis no mercado e quase todas as principais moedas valorizaram entre 1% e 3% face ao Dólar e ao Euro.

Dada a surpreendente evolução na cotação do Euro, a reunião do BCE, nesta quinta-feira, assume uma importância acrescida. É a última oportunidade do Presidente Mario Draghi para definir a perceção sobre as perspetivas para a política monetária na Zona Euro antes do início das férias de verão. Mais precisamente, os mercados vão escrutinar a reação do Conselho do BCE face à recente apreciação considerável do Euro e ao resultante agravamento das condições financeiras na Zona Euro.

EUR

Os únicos dados relevantes publicados na semana passada para a Zona Euro – a produção industrial – constituíram a mais recente confirmação do aumento consistente da atividade económica na região. No entanto, este facto não foi alvo de grande atenção por parte dos mercados, concentrados que estão no calendário para a retirada gradual dos estímulos monetários.

A reunião do BCE, esta quinta-feira à tarde, proporcionará como sempre uma visão fundamental sobre o plano de ação do Conselho. Desde o início do ano, o Euro tem valorizado de maneira significativa face ao cabaz ponderado de moedas dos seus parceiros comerciais, e esta trajetória começou a acelerar desde o discurso de Mario Draghi, em Sintra, no passado mês de junho. Caso Draghi tente refrear as expectativas do mercado, é possível que se venha a assistir a um recuo significativo, tendo em conta o desequilíbrio existente nas posições especulativas a favor das apostas de apreciação do Euro.

GBP

O relatório sobre o mercado de trabalho do Reino Unido, divulgado na semana passada, foi a primeira notícia inteiramente favorável sobre a economia interna dos últimos tempos. No segundo trimestre do ano foram criados mais 175.000 postos de trabalho, o desemprego desceu para 4,5% e (surpresa pequena, mas agradável) os salários aumentaram 2%. A Libra festejou a notícia com uma valorização face a todas as moedas do G10 não ligadas a matérias-primas, quebrando claramente em alta a barreira de 1.30 face ao Dólar.

Esta terça-feira são publicados os dados da inflação referentes ao mês de junho. As expectativas dos mercados apontam, no essencial, para resultados idênticos aos do mês passado, sugerindo assim que a inflação está a atingir os seus máximos e deverá recuar. Um aumento inesperado iria apanhar os mercados totalmente desprevenidos e poderia desencadear uma forte valorização da Libra, em especial face ao Euro.

USD

A Presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, adotou um tom bastante cauteloso no seu discurso semestral perante o Congresso norte-americano. As suas palavras sugeriram que o aumento da inflação até à meta fixada pela Fed é considerado prioritário e que a Reserva Federal perspetiva a consecução desse resultado com mais incerteza do que há uns meses. Esta mensagem foi reforçada pelos dados da inflação de junho publicados na sexta-feira. A taxa de inflação global correspondeu sensivelmente às expectativas do mercado. A taxa de inflação subjacente, mais relevante, que exclui as componentes voláteis da alimentação e da energia, subiu apenas 0,1% em relação ao mês anterior, enquanto as estimativas do consenso apontavam para um aumento de 0,2%.

Grande parte destes resultados parece dever-se a fatores pontuais, como a queda acentuada nos segmentos de hotéis, tarifas aéreas e comunicações móveis. A nossa perspetiva de mais um aumento das taxas de juro em 2017 depende, contudo, de uma taxa de inflação subjacente igual ou superior a 1,5% em termos anualizados. É de esperar que outros fatores isolados mantenham a inflação subjacente em níveis baixos, abrandando ao longo dos próximos meses, com uma retoma dos incrementos mensais da ordem de 0,2%, compatíveis com uma trajetória da inflação para valores acima de 2%.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.