Palavras do Presidente Draghi sobre reflação fazem disparar moedas europeias

Enrique Díaz-Álvarez03/Jul/2017Análise do Mercado de Câmbios

O Fórum do BCE, que reúne responsáveis de bancos centrais, realizado na semana passada em Sintra, produziu alguns títulos noticiosos que afetaram os mercados. O Presidente do BCE, Mario Draghi, fez uma referência às potenciais “forças deflacionistas” que estão em jogo, agora que os riscos deflacionistas foram praticamente afastados, fazendo disparar o Euro. O Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, juntou-se ao seu Economista-Chefe nas alusões a uma mudança de política monetária, sugerindo que é necessário começar a retirar alguns estímulos monetários num futuro não muito distante, o que teve um previsível efeito positivo na Libra.

Num sinal de que o BCE está a assistir à apreciação do Euro com alguma preocupação, “fontes” do banco central, no dia a seguir ao discurso, apressaram-se a explicar que o mercado interpretou mal as palavras de Draghi. Esta retificação travou a subida do Euro, mas não antes de a moeda única ter valorizado mais de 2% face à semana anterior, arrastando todas as moedas do G10, à exceção do Dólar e do Iene.

Num contexto em que os riscos políticos se vão desvanecendo ou já foram totalmente descontados nas moedas (exceto o Dólar), o catalisador dos mercados cambiais volta a centrar-se nas intervenções dos bancos centrais e nos fatores macroeconómicos que as motivam. Assim, de futuro, os principais fatores de movimentação dos mercados serão os indicadores relacionados com a inflação, assumindo o crescimento dos salários em diferentes áreas cambiais um papel especialmente determinante.

EUR

Os acontecimentos que estiveram na origem da valorização do Euro na semana passada foram um pouco estranhos. O Euro começou por reagir com euforia à alusão do Presidente Draghi à dinâmica “reflacionista” na Zona Euro, durante o discurso proferido na passada quarta-feira em Sintra. No entanto, depressa a realidade económica pôs fim a essa movimentação, na sexta-feira, quando se soube que inflação anual na Zona Euro tinha descido de 1,4% para1,3% em termos homólogos. Não obstante uma subida de 0,9% para 1,1%, a inflação subjacente (que exclui os sectores mais voláteis de alimentação e energia) continua dentro do seu intervalo recente e muito longe das metas fixadas pelo BCE.

Esta semana, os mercados deverão concentrar-se no escrutínio das atas da última reunião do BCE, publicadas na quinta-feira.

GBP

O discurso do Governador Mark Carney, no Fórum do BCE em Sintra, veio dar força à nossa opinião de que o mercado está (ou, pelo menos, estava, até à semana passada) a subestimar significativamente as probabilidades de um aumento das taxas de juro do Banco de Inglaterra no quarto trimestre de 2017. Tendo em conta que 4 dos 9 membros do Comité de Política Monetária já declararam publicamente que um aumento dos juros é necessário agora ou muito em breve, essa subida poderá ser decidida logo na primeira reunião depois das férias de verão.

O destaque desta semana vai para a divulgação dos índices PMI da atividade empresarial, na segunda e quarta-feiras.

USD

Na semana que passou, os principais dados divulgados nos EUA resumiram-se à ligeira revisão em alta da taxa de crescimento do PIB, no primeiro trimestre, de 1,2% para 1,4%. Após ajustamento do efeito da grande quebra nos inventários das empresas, a economia norte-americana continua a crescer a uma taxa modesta, mas estável, de 2% ao ano.

Devido ao feriado do Dia da Independência, na terça-feira, a semana de negociação dos mercados nos EUA será mais curta, e pouco se espera no campo político, já que o Congresso estará encerrado durante toda a semana. Além do sempre importante relatório do mercado de trabalho, divulgado na sexta-feira, é expectável alguma volatilidade em torno da publicação das atas da última reunião do Comité FOMC da Reserva Federal, no final do dia de quarta-feira.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.