Moedas ligadas às matérias-primas a ganhar, enquanto mercados ignoram orientação mais interventiva da Fed e do Banco de Inglaterra

Enrique Díaz-Álvarez19/Jun/2017Análise do Mercado de Câmbios

Os bancos centrais de duas economias principais vieram reforçar, na semana passada, a ideia de que a alteração no ciclo de taxas de juro é mesmo definitiva.

A Reserva Federal optou por ignorar os fracos dados publicados recentemente (em particular a descida surpreendente dos números da inflação) e manter praticamente inalteradas as projeções para a economia e a trajetória futura das taxas de juro no famoso gráfico “dot plot”. Na quinta-feira, o Banco de Inglaterra surpreendeu com uma orientação mais interventiva, quando duas novas vozes dissonantes se juntaram a Kristin Forbes no voto a favor de um aumento imediato das taxas de juro. Estas posições dos bancos centrais pouco influenciaram as respetivas moedas, já que o Euro, a Libra e o Dólar terminaram a semana num intervalo de 0,5% em relação aos níveis em que a tinham iniciado.

Em contrapartida, o Dólar canadiano e o Dólar australiano reagiram bastante bem à orientação mais contracionista do banco central (o primeiro) e à divulgação de fortes dados económicos (o segundo), obtendo os maiores ganhos da semana entre as moedas do G10.

Esta semana, o foco de atenção recai sobre os discursos de responsáveis da Reserva Federal em diferentes eventos na segunda e terça-feira. Na sexta-feira são publicados os índices PMI da atividade empresarial da Zona Euro. Na quarta e quinta-feira reúnem-se os bancos centrais da Nova Zelândia e da Noruega, respetivamente. De resto, a agenda da semana não está muito mais preenchida.

EUR

À hora de fecho deste texto, os resultados eleitorais apurados em França davam conta de uma maioria absoluta confortável para o novo partido de Emmanuel Macron. Este facto poderá dar um impulso de curto prazo ao Euro, mas os números determinantes desta semana serão os indicadores PMI de atividade empresarial referentes ao mês de junho. Não se antevendo qualquer alteração de relevo, deverá manter-se o tema da continuação do crescimento económico, com total ausência de pressão dos preços.

GBP

O Reino Unido é a única das principais economias em que a inflação se mantém consistentemente a subir. Continuam a sentir-se os efeitos da desvalorização da Libra no período pós-Brexit. O efeito no nível de vida é claramente negativo, tendo o crescimento dos salários reais evoluído de firmemente positivo para firmemente negativo. E é neste contexto que deve ser apreciada a viragem para uma orientação significativamente mais interventiva do Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra.
A semana que se inicia tem uma agenda relativamente pouco preenchida em termos de publicação de dados relativos ao Reino Unido, pelo que a atenção dos mercados deverá concentrar-se em títulos noticiosos e fugas de informação sobre as negociações do Brexit, que arrancam oficialmente esta segunda-feira.

USD

Nos Estados Unidos, surgiu uma dicotomia interessante. Por um lado, os números da inflação evidenciaram um claro abrandamento nos últimos meses. Por outro lado é evidente que a Reserva Federal está preparada para ignorar esse abrandamento, atribuindo-o a fatores isolados, como as alterações de tarifário dos telemóveis. Reabriu-se assim a divergência entre as expectativas dos mercados e as estimativas da Reserva Federal quanto aos aumentos das taxas de juro norte-americanas. Tal como anteriormente, a nossa expectativa é de que este confronto seja ganho pela Fed e que as taxas norte-americanas continuem a subir a partir dos níveis atuais, o que, a médio prazo, deverá dar um bom suporte ao Dólar.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.