Abrandamento na criação de emprego pressiona Dólar

Enrique Díaz-Álvarez05/Jun/2017Análise do Mercado de Câmbios

As principais moedas passaram grande parte da semana passada a transacionar inexplicavelmente em intervalos muito apertados. Como se previa, a maior parte da ação teve lugar na sexta-feira à tarde, à medida que os mercados reagiam à publicação do relatório do mercado de trabalho norte-americano referente a maio, com números inferiores ao estimado. A criação líquida de 138.000 postos de trabalho, embora razoável, ficou abaixo dos níveis de meses anteriores e aquém das expectativas, pelo que os operadores do mercado aproveitaram a oportunidade para fazer baixar o Dólar. O Dólar terminou a semana a perder valor face à maioria das moedas dos países do G10, exceto as divisas sensíveis às matérias-primas, como o Dólar canadiano, o Dólar australiano e a Coroa norueguesa.

A relativa tranquilidade das últimas semanas deverá dar lugar a um movimento de forte volatilidade esta semana, com especial destaque para quinta-feira. Durante essa tarde, o BCE decidirá o rumo da sua política monetária, seguindo-se a conferência de imprensa do Presidente Mario Draghi, que dará algumas pistas importantes sobre o debate do Conselho de Governadores acerca do momento escolhido para a eventual saída do programa de estímulos monetários, assim como uma possível subida das taxas diretoras. Nesse mesmo dia, o Reino Unido vai às urnas, numa corrida eleitoral que, até há poucas semanas, parecia saldar-se numa vitória garantida, mas que, entretanto, se tornou consideravelmente mais renhida. Por último, ainda na quinta-feira, o ex-diretor do FBI vai depor perante o Senado norte-americano.

EUR

No início da semana passada, o Euro foi abalado pela descida surpreendente da inflação, nas estimativas rápidas para o mês de maio. O recuo na inflação subjacente, de 1,2% para 0,9%, assume uma relevância especial, já que põe em causa a previsão do BCE de uma subida constante da inflação até à meta fixada. Ainda assim, o Euro mais do que compensou as perdas, beneficiando dos dados dececionantes do relatório de emprego publicado nos EUA. Consideramos, todavia, que aquelas estimativas reduzem substancialmente as probabilidades de o BCE mudar o tom do seu discurso na comunicação de quinta-feira. O BCE esforçar-se-á por não perturbar os mercados e fazer declarações que alterem orientações futuras. No entanto, entendemos que existe um risco nada irrelevante de manutenção da atual política, o que penalizaria fortemente a moeda única.

GBP

Os mercados ignoraram por completo os dados de segunda linha publicados para o Reino Unido, mantendo-se antes concentrados nas eleições gerais de 8 de junho. As sondagens continuaram a refletir uma corrida eleitoral muito mais disputada do que antecipavam os Conservadores, com a vantagem do partido de Theresa May a situar-se, em média, entre 5 e 9 pontos percentuais. Mantemos, por isso, o nosso cenário de base, que prevê uma vitória difícil para o Partido Conservador, cabendo ao sistema eleitoral britânico, em que ganha o candidato com maior número de votos (first past the post), traduzir as margens reduzidas numa maioria parlamentar confortável. Os mercados de apostas e os operadores de opções descontam, ambos, 20% de probabilidades de uma minoria parlamentar Conservadora ou de uma vitória Trabalhista. Atendendo aos números tão próximos nas sondagens, são níveis bastante razoáveis. No entanto, no cenário mais provável de uma vitória dos Conservadores, devemos assistir a uma reação de alívio, com a consequente valorização dos ativos no Reino Unido, incluindo a Libra.

USD

Os dados do relatório do mercado de trabalho, inferiores ao previsto, penalizaram o Dólar norte-americano, embora os danos tenham sido controlados pelo facto de os mercados continuarem a descontar uma subida quase certa das taxas de juro da Reserva Federal, em junho. A criação de apenas 138.000 empregos, em maio, face às estimativas de 180.000 novos postos de trabalho, e o facto de os salários continuarem a crescer a uma modesta taxa anual de 2,5%, foram um tanto ou quanto dececionantes.

Esta semana, o depoimento do ex-diretor do FBI, James Comey, perante o Senado, assume uma importância inusitada para os mercados. Com o pacote de estímulos fiscais e investimento em infraestruturas fora da agenda imediata, as revelações de Comey (a existirem) serão importantes no sentido de avaliar a capacidade da Administração para concentrar de novo as atenções nos assuntos internos do país. Os operadores do mercado cambial estarão, por isso, muito atentos a esta audição.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.