Dólar afunda por turbulência na presidência Trump

Enrique Díaz-Álvarez22/May/2017Análise do Mercado de Câmbios

A política volta a dominar os mercados cambiais. O fluxo constante de acontecimentos mediáticos começou, finalmente, a influenciar os ativos de risco em geral. O Dólar registou uma queda acentuada face a todas as moedas dos países do G10, ao passo que o Franco suíço obteve o melhor desempenho – uma evolução normal num contexto de crescente aversão ao risco. As expectativas dos mercados quanto ao pacote de estímulos fiscais e gastos em infraestruturas deram-se por vencidas, tendo em conta que o esperado impasse governamental nos EUA deverá adiar tais medidas para 2018. O mercado está inclusivamente a incorporar 20% de probabilidades de que não se venha a concretizar o aumento das taxas de juro da Reserva Federal, em junho.

O Real brasileiro foi igualmente penalizado por um escândalo de grande dimensão, que parece envolver diretamente o Presidente Temer na prática de corrupção. O Real afundou mais de 5% desde a divulgação do escândalo, tendo as ações e obrigações brasileiras sofrido também graves perdas.

Esta semana é relativamente pouco preenchida em termos de divulgação de dados para os principais mercados. Os índices de atividade empresarial PMI da Zona Euro deverão confirmar que a recuperação da economia da região continua no bom caminho. Além disso, as posições curtas em Euros detidas pelos operadores de mercado parecem estar totalmente liquidadas, o que geralmente é indicador do contrário. Por conseguinte, consideramos que os riscos associados ao EUR/USD tendem para uma descida, numa altura em que se aguarda a publicação das atas da reunião de abril da Fed esta semana.

EUR

O risco político parece ter saltado para o outro lado do Atlântico. No que respeita à situação política na Zona Euro, os mercados receberam um novo incentivo, com os resultados positivos do partido político do Presidente Macron, En Marche, nas sondagens para as próximas eleições legislativas em França, enquanto os escândalos em torno da presidência Trump chamam cada vez mais a atenção. Os índices PMI deverão confirmar níveis fortes de atividade empresarial, compatíveis com um crescimento acima de 2%. No entanto, à falta de mais notícias bombásticas sobre a Casa Branca, e à medida que se consolida a divergência de políticas monetárias, consideramos que existe potencial para um recuo do Euro.

GBP

A Libra conseguiu, ainda que por pouco, vencer a barreira psicológica de 1.30 face ao Dólar dos EUA. Os dados divulgados sobre a economia foram mistos: por um lado, os números positivos para as vendas a retalho relativas ao mês de abril, a subida da inflação e o crescimento intenso do emprego, mas, por outro, um aumento dos salários abaixo do esperado. Vale a pena lembrar que, desde o referendo do Brexit, o crescimento dos salários reais tem apresentado um saldo negativo, num cenário em que a inflação cresce mais rapidamente do que os salários.

Esta semana, o calendário de publicação de dados no Reino Unido é muito reduzido. Assim, a Libra deverá negociar sobretudo em reação a acontecimentos externos, nomeadamente novos desenvolvimentos políticos sobre a investigação à campanha de Trump, no outro lado do Atlântico.

USD

Na semana passada assistiu-se a um novo desenvolvimento nos mercados cambiais. Os investidores começaram a reagir à confusão instalada na Casa Branca e à incerteza sobre o futuro de Trump, aplicando ao Dólar um preço de risco político. A moeda norte-americana começou a cair a 9 de maio, quando foi anunciada a demissão de James Comey. Esse movimento de queda tem prosseguido, apesar da quase total inexistência de dados macroeconómicos ou desenvolvimentos de política monetária que o sustentem. Este tipo de “prémio de risco” associado ao Dólar parece ser o oposto do “prémio de risco político” de que tanto ouvimos falar durante as múltiplas crises do Euro. É, no entanto, a primeira vez que assistimos a tal desenvolvimento no outro lado do Atlântico.

Seja qual for o desfecho da atual crise política nos EUA, muito dificilmente Trump conseguirá, ainda este ano, fazer aprovar no Congresso qualquer pacote significativo de estímulos fiscais ou gastos em infraestruturas, o que pesará na subida das taxas de juro da Reserva Federal e no valor do Dólar. Isto significa provavelmente que, à semelhança do que aconteceu na Europa no passado, há que começar a prestar muita atenção à evolução da situação política nos EUA para se poder explicar os movimentos dos ativos financeiros e dos mercados cambiais.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.