Semana crítica para o euro: dados PMI e eleições em França

Enrique Díaz-Álvarez18/Apr/2017Análise do Mercado de Câmbios

A semana passada, ainda que mais curta devido aos feriados, deu conta de dados económicos importantes nos EUA. Os dados da inflação referentes ao mês de março ficaram muito abaixo dos níveis esperados pelos mercados. Face à divulgação desses dados, registou-se uma forte valorização das obrigações do Tesouro norte-americanas, enquanto os yields (que evoluem no sentido oposto) desceram para o nível mínimo do intervalo de negociação mantido desde os resultados das eleições presidenciais nos EUA. É certo que o Dólar teve uma semana difícil; porém, atendendo à movimentação observada nos mercados das taxas, é positivo que tenha encerrado a semana praticamente inalterado face ao Euro, apesar de ter perdido terreno face a todas as outras moedas do G10.

A moeda única continua a sentir dificuldades num contexto de incerteza em torno dos resultados das eleições presidenciais em França.

Sem surpresa, o maior beneficiário da descida das taxas norte-americanas foi o Iene, que valorizou face a todas as principais moedas, com exceção do Rand da África do Sul, o qual registou uma espantosa recuperação, após o recente movimento de quebra desencadeado pelo afastamento do respeitado ministro das Finanças sul-africano, há cerca de duas semanas.

Esta semana afigura-se decisiva para o Euro. Para quarta-feira, estão previstas declarações importantes de membros do Banco Central Europeu. Segue-se, na sexta-feira, a publicação das estimativas rápidas dos índices de atividade empresarial PMI – o indicador avançado mais importante para a economia da Zona Euro no seu conjunto. Por fim, no domingo, realiza-se a primeira volta das eleições presidenciais em França. Por conseguinte, os próximos dias podem trazer grande volatilidade aos mercados cambiais.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE:

EUR

O Euro continua a perder em relação à maioria das restantes moedas do G10, penalizado pela incerteza em torno das eleições francesas, assim como pelo discurso mais brando dos responsáveis do BCE, na sua tentativa de conter as expectativas de alteração da política ultra-expansionista deste banco central. Os índices de atividade empresarial PMI são, em regra, dados com potencial para mover os mercados, mas tendo em conta a realização das eleições em França, dois dias depois, é difícil prever como os mercados vão reagir. As expectativas do consenso apontam para a continuação dos recentes resultados positivos nos índices PMI, o que poderá criar alguns riscos negativos caso os dados recuem após a subida acentuada do mês anterior.

O acontecimento determinante para a moeda única terá, obviamente, lugar no domingo, com a ida dos franceses às urnas. O grande risco nesta primeira volta eleitoral será a passagem do par Mélenchon-Le Pen à segunda volta, um cenário muito pouco provável mas não impossível. No domingo, assim que estejam disponíveis resultados mais definitivos, faremos um ponto de situação – será, sem dúvida, um início interessante de semana para a sessão asiática.

GBP

Os dados da inflação e do desemprego do Reino Unido mantiveram-se inalterados em março, correspondendo assim às expectativas do mercado. Porém, a Libra continuou a valorizar face ao Euro e ao Dólar dos EUA, enquanto os mercados se libertam do pessimismo, talvez excessivo, dos últimos meses em relação às negociações do Brexit.

Esta semana, o único facto digno de nota é a divulgação das vendas a retalho, na sexta-feira. Por serem dados tipicamente voláteis, o impacto no mercado deverá ser irrelevante. Assim, a Libra deverá negociar, ao longo da semana, condicionada sobretudo por notícias da Zona Euro e desenvolvimentos da situação geopolítica.

USD

Os dados da economia norte-americana, publicados na semana passada, ficaram bastante abaixo das expectativas. Os números tipicamente voláteis do comércio a retalho registaram, em março, a segunda quebra mensal consecutiva em termos de evolução em cadeia, embora o indicador menos volátil, que exclui as vendas de automóveis e combustíveis, tenha sido positivo. Mais difícil de ignorar foi o grande desvio em relação às expectativas da inflação. A taxa de inflação global foi de 2,4% em termos homólogos, ou seja, 0,2% abaixo das estimativas. Mais importante foi o facto de a taxa de inflação subjacente, que exclui os componentes voláteis da alimentação e energia, ter recuado 0,1% em março, ficando 0,3% aquém das expectativas. Embora grande parte desta surpresa possa ser atribuída a um facto isolado (a maior quebra mensal de sempre nos serviços de telemóveis), mesmo excluindo esse fator, os resultados ficariam bastante abaixo das estimativas.

Assim, estaremos atentos aos números do próximo mês, para perceber se os dados de março foram uma mera anomalia ou o início de uma tendência de abrandamento no aumento dos preços nos EUA. Esta semana, há muito pouco a registar na agenda norte-americana, pelo que também aqui serão os desenvolvimentos da situação geopolítica e os resultados das eleições em França os principais fatores a influenciar a evolução do Dólar face às outras moedas do G10.

Print

Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.