Recuo da inflação afunda Euro face ao Dólar e à Libra

Enrique Díaz-Álvarez03/Apr/2017Análise do Mercado de Câmbios

Na sexta-feira passada, a nossa ideia de que as expectativas dos mercados para um aumento das taxas de juro pelo BCE não se justificavam foi, de certa forma, validada. Os dados da inflação da Zona Euro surpreenderam com uma descida, tendo o valor decisivo da inflação subjacente (que exclui as componentes voláteis dos bens alimentares e da energia) desacelerado para 0,7%, muito próximo do mínimo histórico de 0,6%. Muito embora a moeda única já tivesse iniciado um movimento de desvalorização (sell off) a meio da semana, quando fontes do BCE começaram a recuar em relação às referidas expectativas, foram aqueles dados publicados na sexta-feira que fizeram o Euro fechar a semana a perder face ao Dólar e à Libra.

A maior movimentação da semana passada pertenceu ao Rand da África do Sul, que registou uma quebra de cerca de 6% após a notícia de que o respeitado ministro das Finanças, Pravin Gordhan, havia sido despedido demitido pelo Presidente Zuma, numa decisão que poderá sinalizar o início de uma política monetária e orçamental mais expansionista naquele país.

Esta semana, o regresso de uma agenda mais preenchida em termos de divulgação de dados macroeconómicos deverá influenciar a evolução dos mercados: o índice de confiança empresarial Tankan do Japão, as vendas a retalho da Zona Euro, o índice PMI da China e o sempre importante relatório do mercado de trabalho norte-americano na sexta-feira. Este relatório será, mais uma vez, objeto de grande escrutínio, no sentido de detetar eventuais sinais de que um mercado de trabalho mais competitivo está finalmente a pressionar o aumento dos salários, como espera a Reserva Federal.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE:

EUR

As expectativas criadas em torno de um aumento das taxas de juro do BCE foram adiadas para um futuro não muito próximo, na sequência dos acontecimentos da semana passada. Os esforços discretos do BCE para conter aquelas expectativas, a que se juntou o abrandamento das taxas de inflação em março, afetaram negativamente o Euro. A inflação global desceu de 2% para 1,5%. Mais importante ainda, o indicador mais estável da inflação subjacente recuou de 0,9% para 0,7%, pondo em causa as expectativas otimistas das previsões do próprio BCE. A menos que se verifique uma (improvável) recuperação da taxa da inflação subjacente nos próximos meses, é de prever uma revisão em baixa na reunião de junho do BCE, o que deverá seguramente manter a pressão de descida sobre o Euro ao longo de 2017.

GBP

O início do processo formal do Brexit, acionado o Artigo 50, acabou por resultar num movimento moderado de valorização da Libra Esterlina. O ambiente de otimismo foi ainda reforçado pelo tom relativamente apaziguador dos últimos comunicados do governo liderado pela Primeira-Ministra Theresa May.

Esta semana, as atenções viram-se para os índices do sentimento empresarial PMI relativos ao mês de março, que deixam entrever a provável evolução da despesa de investimento nas etapas iniciais do processo do Brexit.

USD

No início da semana passada, o Dólar foi penalizado pelo pessimismo que se fez sentir em relação a futuras iniciativas da Administração Trump em matéria de política orçamental, após o desaire sofrido com a lei do sistema de saúde. No entanto, as surpresas positivas no campo económico e uma série de declarações mais interventivas por parte da Reserva Federal foram suficientes para sustentar as expectativas de subida das taxas de juro e servir de suporte ao Dólar. O contraste com os comentários anónimos mais expansionistas do BCE veio realçar, mais uma vez, a profunda divergência de política monetária entre os dois lados do Atlântico e permitiu que o Dólar norte-americano recuperasse até meio do seu mais recente intervalo de negociação.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.