Mercados cambiais continuam na expectativa dos próximos passos da administração Trump

Enrique Díaz-Álvarez27/Mar/2017Análise do Mercado de Câmbios

A semana passada foi de compasso de espera para os mercados, num contexto em que todas as moedas dos países do G10, salvo o Dólar australiano e o Iene, fecharam o período a menos de 1% do ponto de partida. Esta indecisão estendeu-se igualmente às moedas dos mercados emergentes, tendo o Rand da África do Sul e o Real do Brasil evoluído em sentidos opostos, mesmo sem grandes motivos a justificar qualquer um dos movimentos. Nem mesmo os números dos inquéritos PMI da Zona Euro, divulgados na sexta-feira, ou a derrota de Trump nos seus esforços para revogar a reforma do sistema de saúde de Obama, foram suficientes para despertar os operadores de mercado.

A falta de reação aos dados políticos e económicos da Zona Euro é indicativa de que tais resultados, na sua maioria, já estavam descontados pelos mercados cambiais.

Os operadores de mercado estarão agora atentos à capacidade da administração Trump para recuperar da derrota da semana passada e implementar os cortes de impostos e o investimento público em infraestruturas (cada vez menos provável ainda este ano).

Além da política norte-americana, o destaque desta semana é a divulgação dos números da inflação de março para a Zona Euro, na sexta-feira. Será o primeiro teste às projeções otimistas do Banco Central Europeu (BCE) para uma trajetória estável de subida na inflação da Zona Euro, até à meta fixada.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE:

EUR

Os mercados praticamente ignoraram a procura superior às expectativas, por parte dos bancos da Zona Euro, à liquidez oferecida pelo BCE na sua última Operação de Refinanciamento de Prazo Alargado (ORPA). Foram mais de 233 mil milhões de euros em financiamento barato que os bancos puderam aproveitar, embora ainda não se perceba se este movimento reflete uma maior apetência pelo risco entre as instituições financeiras da Zona Euro. Os índices de confiança das empresas PMI foram claramente positivos, tendo atingido o valor máximo do ciclo com 56,5 pontos, compatível com a aceleração do crescimento da Zona Euro próxima dos 2,5%. A análise dos números do PIB do primeiro trimestre servirá para determinar se esta confiança das empresas se traduzirá efetivamente num maior investimento.

Numa semana tranquila em termos de publicação de dados para a Zona Euro, a moeda única deverá deixar-se influenciar por acontecimentos externos.

GBP

A subida da taxa de inflação no Reino Unido, divulgada na semana passada, veio validar a nossa convicção de que os mercados estão a subvalorizar significativamente a probabilidade de o Banco de Inglaterra aumentar as taxas de juro ainda em 2017. A inflação subjacente já atingiu os 2%, o mercado de trabalho está equilibrado e o impacto da fraqueza da Libra ainda não está totalmente refletido no aumento dos preços das importações.

Esta apreciação incorreta, aliada à dinâmica “buy the rumor, sell the fact” (“comprar rumores, vender factos), que se observa em torno da ativação do Artigo 50, significa que a recente valorização da Libra poderá continuar, em especial face ao Euro.

USD

Após o fracasso desastroso dos esforços republicanos para “revogar e substituir” a reforma do sistema de saúde de Obama, na semana passada, o futuro das promessas de Trump de implementar uma redução significativa de impostos e medidas de investimento público em infraestruturas nunca pareceu tão incerto. Uma vez que os dados macroeconómicos não deverão surpreender nem pela positiva nem pela negativa, os mercados cambiais vão manter-se concentrados na agenda política norte-americana e, em particular, nas tensões internas no seio do Partido Republicano e nas discussões em torno das futuras propostas de reforma fiscal e redução de impostos da administração Trump.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.