Reunião da Fed penaliza Dólar e falta de unanimidade no Banco de Inglaterra faz disparar Libra

Enrique Díaz-Álvarez20/Mar/2017Análise do Mercado de Câmbios

As expectativas de uma política monetária mais interventiva, criadas em torno da reunião da Reserva Federal, realizada na passada semana, foram frustradas. Muito embora as taxas de juro tenham subido 0,25%, tal como se esperava, os membros do Comité FOMC mantiveram as previsões macroeconómicas e de aumentos de taxas, inalteradas em relação à reunião de dezembro. A fuga ao Dólar foi ainda favorecida pela atenuação das preocupações políticas na Europa, tendo em conta que, na Holanda, os resultados eleitorais do partido antieuropeísta ficaram muito aquém das previsões, enquanto, em França, as sondagens continuam a colocar Marine Le Pen muito atrás de qualquer rival plausível na segunda volta das eleições presidenciais. Daí que, pela primeira vez em vários meses, o Dólar tenha desvalorizado face a todas as moedas dos países do G10. A mensagem mais branda da Fed favoreceu, em especial, as moedas dos mercados emergentes, que registaram uma acentuada valorização, conduzida pela Lira turca e pelo Rand da África do Sul.

A semana que hoje se inicia será relativamente pouco preenchida em termos de publicação de dados importantes. Ainda assim, espera-se uma reação da Libra a qualquer eventual surpresa nos dados da inflação do mês de fevereiro, caso o efeito dos baixos níveis da Libra seja mais forte do que o previsto. Já na sexta-feira espera-se que os resultados dos inquéritos PMI às empresas confirmem a ligeira melhoria sentida nos dados económicos da Zona Euro.

EUR

Ultrapassada a reunião do BCE, a vida política retoma a posição de destaque na Zona Euro. A agenda noticiosa da semana passada ofereceu um bom suporte à moeda única. Os fracos resultados do partido populista PVV nas eleições holandesas remeteram-no para um segundo lugar, distante em relação ao partido de centro-direita VVD, com apenas 13% dos votos. Assim, não será muito difícil para os partidos do sistema formarem uma coligação governamental, sem incluir, de novo, o PVV. Com o afastamento dos riscos políticos imediatos, os mercados deverão virar novamente as atenções para os fundamentos económicos. Interessa agora saber se os números da inflação vão ao encontro das projeções otimistas do BCE. Caso a inflação subjacente não suba, em consonância com tais previsões, é de esperar um novo movimento de desvalorização do Euro.

GBP

Na semana passada, a Libra beneficiou de uma ajuda, aliás muito necessária, do Banco de Inglaterra. A nossa opinião de que o mercado está a subestimar as probabilidades de uma subida antecipada das taxas foi de certa forma corroborada na quinta-feira, quando um membro do Comité de Política Monetária, Kristin Forbes, emitiu um voto dissonante em defesa do aumento imediato dos juros.

O movimento recente de valorização da Libra poderá ainda não ter terminado, caso os números da inflação no Reino Unido, divulgados esta terça-feira, surpreendam com uma subida. Espera-se que a tendência de subida na inflação subjacente, observada nos últimos tempos, prossiga, independentemente do ritmo, sendo possível que, muito em breve, outras vozes dissonantes se juntem à de Kristin Forbes, no Comité. Tendo em conta que o mercado já descontou totalmente um processo conturbado de negociação do Brexit, e que a Libra se encontra em níveis mínimos históricos, consideramos que os riscos tendem para uma maior valorização da Libra durante as próximas semanas.

USD

A postura relativamente branda assumida pela Reserva Federal, na passada semana, não obstante o aumento das taxas para o intervalo de 0,75-1%, poderá enfraquecer o Dólar, no curto prazo. Os conflitos internos no Partido Republicano sobre os termos da revogação da lei da saúde do Presidente Obama estão a forçar um adiamento cada vez maior da eventual redução de impostos ou de qualquer investimento significativo em infraestruturas. O calendário noticioso está relativamente pouco preenchido nas próximas semanas, pelo que o Dólar deverá negociar, sobretudo em tendência lateral, até à divulgação do próximo relatório do mercado de trabalho, previsto para 7 de abril.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.