Euro valoriza face ao otimismo do BCE e aumento das taxas nos EUA influenciarão o dólar

Enrique Díaz-Álvarez14/Mar/2017Análise do Mercado de Câmbios

O quase certo aumento das taxas de juro da Reserva Federal (Fed) esta semana e a publicação de mais um relatório positivo do mercado de trabalho norte-americano não foram suficientes para afetar a taxa EUR/USD, que encerrou a semana praticamente inalterada. O Euro foi suportado pelo tom ligeiramente otimista de Mario Draghi na conferência de imprensa subsequente à reunião do Banco Central Europeu (BCE), bem como pela crescente confiança na vitória do candidato centrista Emmanuel Macron nas próximas eleições presidenciais francesas. Neste contexto, tanto o Dólar como o Euro valorizaram fortemente face a todas as outras principais moedas, tendo as maiores perdas sido registadas nos mercados emergentes. O efeito da subida das taxas nas obrigações do Tesouro norte-americanas e nos títulos de dívida pública da Zona Euro foi amplificado pela debilidade geral que se fez sentir nas matérias-primas industriais e no petróleo, com o consequente agravamento das condições comerciais para a maioria das economias emergentes.

Esta semana, o foco principal recai sobre a reunião da Reserva Federal na quarta-feira. Tendo em conta que os dados do emprego norte-americanos já praticamente garantiram a subida das taxas de juro, resta agora saber se o Comité FOMC da Fed atualizará novamente as suas previsões para o ritmo de aumentos em 2017 no famoso gráfico “dot plot”.
Neste lado do Atlântico, um outro acontecimento determinante terá lugar também na quarta-feira, dia em que a Holanda vai às urnas. A expectativa é de poucas repercussões nos mercados e de um resultado eleitoral que, a crer nas últimas sondagens, manterá o PVV e a sua posição anti-europeia fora do Governo. Ainda assim, a conjugação destes fatores – reunião da Fed e eleições na Holanda – poderá criar um ambiente de forte volatilidade nos mercados entre o fim do dia de quarta-feira e a manhã de quinta-feira.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE:

EUR

Na reunião de quinta-feira, correspondendo as todas as expectativas, o BCE manteve a sua política monetária inalterada, tendo, contudo, adotado um tom ligeiramente mais otimista. O Presidente Mario Draghi reconheceu que o balanço dos riscos para a economia da Zona Euro melhorou e declarou vitória sobre a deflação. A moeda única também beneficiou de notícias divulgadas na sexta-feira sobre a discussão no Conselho de uma possível subida das taxas antes do fim do programa de estímulos monetários. No entanto, Mario Draghi advertiu que a atualização das previsões do BCE para a inflação dependia da “implementação total” da política monetária deste banco central e tenderia a descontar uma possível subida das taxas em 2017.

Esta semana, os riscos para o Euro concentram-se nas eleições na Holanda, na quarta-feira, e nas estimativas rápidas da inflação da Zona Euro em março, divulgadas na quinta-feira.

GBP

A aprovação de um Orçamento de Estado sem grandes surpresas permitiu à Libra transacionar de forma estável na semana passada. No entanto, acabou por perder terreno face ao Dólar e ao Euro, visto que os dados positivos nos EUA e na Zona Euro contrastaram com os crescentes riscos políticos decorrentes do Brexit. Esta semana será determinante para definir o rumo que a Libra deverá seguir a médio prazo. Tudo indica que o Artigo 50 será acionado até quarta-feira, enquanto, na quinta-feira, realiza-se a reunião do Banco de Inglaterra. Não se antevê qualquer alteração na política monetária, mas as declarações sobre as expectativas futuras do Comité de Política Monetária serão, como sempre, decisivas. Por último, ainda na quarta-feira, será divulgado o relatório do mercado de trabalho. O crescimento dos salários poderá exceder as expectativas modestas do mercado, dando assim um muito necessário suporte à Libra.

USD

Os dados do mercado de trabalho norte-americano, mais fortes do que se esperava, parecem dar como garantido um aumento de 0,25% nas taxas de juro, após a reunião de março da Reserva Federal. Tendo em conta que os mercados já descartaram totalmente essa eventualidade, o impacto deverá ser limitado. Mais importante será o tom adotado nas declarações do Comité FOMC e na conferência de imprensa da Presidente Janet Yellen após a reunião. Mais precisamente, os mercados estão ansiosos por avaliar a reação à força do mercado de trabalho, quase no pleno emprego, ao recente aumento da inflação subjacente e às subidas dos mercados acionistas, fatores que favorecem um incremento do consumo através do efeito de riqueza. A expectativa é de que o gráfico “dot plot” atualize as previsões para quatro aumentos de taxas em 2017 e outros quatro em 2018. Os economistas e os operadores de mercado têm vindo a rever as suas projeções fortemente em alta, mas consideramos que ainda continuam “atrás da curva”, pelo que antevemos algum potencial para uma valorização significativa do Dólar após a reunião de quarta-feira.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.