Mercados permanecem em intervalos estreitos, indiferentes aos dados económicos

Enrique Díaz-Álvarez27/Feb/2017Análise do Mercado de Câmbios

As moedas dos países do G10 continuam a negociar em intervalos muito estreitos, evidenciando baixa volatilidade, sem que os operadores de mercados se mostrem dispostos a apostar claramente num dos sentidos. O foco nas declarações dos bancos centrais e nos dados macroeconómicos deu lugar a uma obsessão com a agenda política. De realçar que nem o tom relativamente agressivo das atas da reunião de janeiro da Reserva Federal, nem o valor mais elevado desde 2011 para o indicador do sentimento empresarial da Zona Euro tiveram um impacto duradouro nos mercados cambiais.

Embora as eleições em França e na Holanda estejam cada vez mais próximas, o maior risco a curto prazo é, sem dúvida alguma, o discurso de Trump na sessão conjunta do Congresso norte-americano, amanhã. Qualquer informação ou revelação sobre a futura política fiscal ou as perspetivas – cada vez mais remotas – de um investimento significativo nas infraestruturas poderá fazer disparar o Dólar dos EUA. Também a trajetória do Euro poderá ser influenciada, na quinta-feira, com a publicação das estimativas rápidas da taxa de inflação da Zona Euro.

O Peso mexicano obteve o melhor desempenho das principais divisas, na semana passada, tendo recuperado praticamente todas as perdas desde a noite das eleições norte-americanas em novembro. Desta feita, o catalisador foi o anúncio de medidas moderadas de suporte à moeda pelo banco central daquele país, Banxico. Mantém-se a dúvida, todavia, de que se trate de uma recuperação sustentada, face à incerteza significativa que persiste em torno do comércio e do investimento mexicanos devido ao protecionismo imprevisível de Trump.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE:

EUR

A semana passada brindou-nos com surpresas positivas nos índices de sentimento empresarial PMI das principais economias da Zona Euro. A Alemanha apresenta agora o PMI mais elevado das principais economias, enquanto a França atingiu um máximo em 70 meses. Importa destacar que se trata do indicador avançado mais importante sobre o estado da economia europeia e que aponta claramente para uma aceleração do crescimento a curto prazo. Ainda assim, o mercado continua de olhos fixos nas mais recentes sondagens para as eleições em França e, em menor grau, na Holanda. Apenas um reconhecimento explícito da parte do BCE de uma melhoria efetiva das condições económicas terá um impacto duradouro sobre a moeda única – e estimamos que tal só deverá acontecer daqui a vários meses.

GBP

Na semana passada, a tendência de apreciação da Libra face ao Euro prosseguiu, suportada por uma revisão em alta do crescimento do PIB do quarto trimestre e pelo nervosismo crescente com as eleições francesas associado a uma tendência geral para – a nosso ver – sobrestimar as hipóteses de uma vitória de Le Pen.
Esta semana, a expectativa é de que, a exemplo do que aconteceu na Zona Euro, os índices do sentimento empresarial PMI surpreendam pela positiva, o que ajudará a dissipar as dúvidas em torno da saúde da economia do Reino Unido, a curto prazo, e a sustentar a Libra.

USD

As atas da última reunião da Reserva Federal, divulgadas na semana passada, referiam que estão previstos mais aumentos das taxas num prazo “razoavelmente breve”. Embora os mercados das taxas de juro pareçam, para já, ter interpretado tal previsão como uma subida das taxas em maio ou junho, consideramos que um aumento em março continua subavaliado, atendendo às surpresas positivas no mercado de trabalho e à subida registada nas taxas de inflação subjacente e global.

Esta semana coincide com um período excecionalmente rico em acontecimentos políticos e novos dados macroeconómicos nos EUA. Amanhã, Donald Trump discursa na sessão conjunta do Congresso norte-americano. A expectativa de que revele o que se propõe fazer em matéria de redução de impostos ou de investimento em infraestruturas é reduzida, pelo que os mercados estão vulneráveis a uma surpresa que, a acontecer, serviria quase de certeza de suporte ao Dólar. Além da publicação dos dados relativos às encomendas de bens duradouros e rendimento das famílias, na sexta-feira é divulgado o sempre importante relatório do mercado de trabalho, referente ao mês de fevereiro. O tom positivo que temos observado nos dados económicos dos últimos dois meses deverá continuar. Por último, na sexta-feira a Presidente da Fed, Janet Yellen, profere o último discurso sobre política monetária, antes do período de silêncio que antecede a reunião de março. É de prever uma volatilidade elevada em torno de tais declarações e uma possibilidade significativa de o Dólar terminar a semana a valorizar.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.