2017: o ano da vitória do dólar face ao euro

Enrique Díaz-Álvarez23/Feb/2017Análise do Mercado de Câmbios

Artigo de Opinião publicado na Risco Magazine. Ver versão em pdf.
Autor: Enrique Díaz-Álvarez, diretor de Risco da Ebury

2016 foi, sem qualquer dúvida, o ano da mudança.

Em primeiro lugar, o resultado inesperado do referendo no Reino Unido, em junho, quando os cidadãos britânicos votaram a favor da saída da União Europeia, o que causou a depreciação mais acentuada da Libra face ao Dólar desde 1985, muito embora aquela moeda tenha vindo a estabilizar nos últimos meses.

5 meses depois, o republicano Donald Trump surpreendia tanto a democrata Hillary Clinton como as sondagens, ao ganhar a corrida eleitoral à Casa Branca. A vitória de Trump foi, uma vez mais, um resultado inesperado para os mercados, que reagiram imediatamente com perdas tanto para o Dólar como para os ativos de risco. No entanto, poucas horas depois, o Dólar conseguiu inverter e tem mantido uma tendência crescente desde então, recuperando face a quase todas as principais moedas.

Desde então a evolução do dólar tem estado relaciocionada com as declarações de Trump. A moeda norte-americana tocou em janeiro no seu nível mais elevado dos últimos 14 anos, ainda que a falta de clareza sobre as politicas económicas do novo inquilino da Casa Branca tenha penalizado a sua cotação nas ultimas semanas, em especial face ao euro.

Apesar de tudo, será de esperar que continue a valorizar face aos seus principais pares, em particular face ao Euro, mas como já referido, isto dependerá dos próximos movimentos da administração Trump. Esta perspetiva é reforçada pela divergência entre as políticas monetárias dos dois principais bancos centrais do mundo – a Reserva Federal nos EUA e o Banco Central Europeu (BCE) na Zona Euro. O BCE intensificou os esforços no sentido de impulsionar o crescimento e a inflação. Em dezembro, antes de terminar o ano, reviu o programa de estímulos monetários, prolongando o prazo de compra de ativos até dezembro de 2017, em vez de março que era a data de termo prevista. Esta extensão do prazo foi maior do que o mercado tinha descontado inicialmente e pode-se dizer que constitui um mau sinal para a evolução do euro em 2017.

Na posição oposta, a Reserva Federal aumentou a taxa de juro de referência nos Estados Unidos, em dezembro, pela segunda vez desde a crise financeira. A subida decidida pela Fed foi de 25 pontos base, de 0,5% para 0,75%, depois de ter mantido a taxa inalterada durante um ano inteiro. No entanto, talvez mais importante para o mercado não seja esta subida de dezembro, que já havia sido descontada, mas sim termos pela frente novas subidas ao longo de 2017. A este respeito se o “gráfico de pontos” da FED de Dezembro de 2015 apontava para duas subidas de taxas de juro para 2017, agora as expectativas apontam para uma média de três subidas. Trata-se de uma posição da FED mais agressiva, que reforça a apreciação continuada do dólar frente aos seus principais pares.

Quanto às moedas dos mercados emergentes, podemos dizer que 2016 foi um ano relativamente positivo, salvo algumas exceções de relevo. As designadas moedas exóticas beneficiaram do impulso dado pela subida dos preços das matérias-primas registada desde o início do ano, com especial destaque para o aumento do preço do petróleo. Mesmo após a forte depreciação sofrida em reação à vitória de Trump nos Estados Unidos, a maior parte destas moedas parece destinada a terminar o ano a ganhar face ao Dólar.

Na frente política, a Itália votou de forma categórica contra as reformas constitucionais propostas no referendo realizado em dezembro. Consideramos que a eleição de Trump e o voto a favor do “Brexit” aumentaram as probabilidades de os partidos populistas poderem ascender ao poder na Europa durante o próximo ano, cujo calendário inclui uma série de eleições gerais e presidenciais importantes. Em 2017, França, Alemanha, Países Baixos e, possivelmente, Itália vão às urnas. Cada um destes acontecimentos poderá criar ambientes de incerteza e de volatilidade semelhantes aos vividos em 2016.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.