Declarações improvisadas de Trump sobre um euro subvalorizado servem de suporte à valorização do euro

Enrique Díaz-Álvarez06/Feb/2017Análise do Mercado de Câmbios

O discurso agressivo e inopinado da recém-instalada Administração Trump tem sido uma constante desde a tomada de posse. Na semana passada, os alvos mudaram, tendo o México sido poupado e a Alemanha sido acusada de tirar partido de um Euro “demasiado subvalorizado”. O Dólar norte-americano foi igualmente penalizado pelas crescentes dúvidas sobre a capacidade e vontade da Administração Trump para implementar os estímulos orçamentais que havia prometido. Estas preocupações acabaram por se sobrepor, em certa medida, a uma reunião da Reserva Federal, bastante inócua, assim como à divulgação dos dados do mercado de trabalho, na sexta-feira.

Esta semana é parca em novos dados sobre a economia e a política monetária, pelo que os mercados cambiais deverão ser sobretudo influenciados por notícias da vida política. No centro das atenções estarão, como habitualmente, as mensagens de Trump no Twitter, mas não convém descurar o tema das eleições presidenciais em França, em especial se houver indícios de que a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, está a ganhar terreno nas sondagens para a segunda volta.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE

EUR

Na Alemanha, os dados de janeiro deram conta de uma subida da inflação e de uma descida do desemprego. Estes dados vêm reforçar a tese de que as medidas de estímulo monetário na Zona Euro estão a surtir o efeito desejado, fazendo subir o crescimento e o emprego e elevando lentamente a inflação até à meta fixada pelo Banco Central Europeu (BCE). No entanto, não esperamos observar benefícios significativos para o Euro até o Conselho do BCE reconhecer tal melhoria, o que manifestamente ainda não aconteceu.

Esta semana, também na Zona Euro, são os acontecimentos políticos que estão em destaque. Em França, ao que parece, a grande incerteza é saber qual o candidato que vai disputar com Marine Le Pen a segunda volta das eleições presidenciais. Ainda que o candidato do centro, Emmanuel Macron, pareça ser o favorito, na sequência dos escândalos que atingiram a campanha de François Fillon, consideramos que os mercados podem estar a subestimar as hipóteses do candidato do Partido Socialista, Benoît Hamon.

GBP

O Banco de Inglaterra colocou um travão brusco no recente movimento de valorização da Libra, na reunião da passada quinta-feira. De acordo com todas as expectativas, as taxas mantiveram-se inalteradas. No entanto, o Comité de Política Monetária baixou as estimativas para a taxa de desemprego de equilíbrio (natural) nuns consideráveis 0,5%, para 4,5%, sugerindo assim que a tolerância do Banco de Inglaterra às fortes pressões dos mercados e da inflação poderá ser maior do que se pensava. Apesar de mantermos a expectativa de que se seguirá um aumento das taxas, parece evidente que a primeira subida não deverá ocorrer tão cedo.

À semelhança dos EUA, esta semana o centro das atenções regressa ao processo político. Assim, na quarta-feira, deverá ser aprovado na Câmara dos Comuns o projeto-lei que permite acionar o Artigo 50.

USD

Os mercados ignoraram quase por completo os dois principais acontecimentos da semana passada. A Reserva Federal emitiu uma declaração, em tom ligeiramente agressivo, que deixou a porta aberta para o que tanto pode ser um aumento como uma manutenção das taxas de juro na reunião de março. Quanto aos dados do mercado de trabalho de janeiro, os números da criação de emprego superaram as expectativas (227 mil postos de trabalho criados face a 180 mil estimados) mas, por outro lado, o crescimento dos salários desceu dos 2,8% revistos para 2,5%. O desemprego aumentou 0,1%, o que se deveu, todavia, a um incremento de 0,2% da taxa de participação de população ativa, o que não deixa de ser uma mensagem positiva sobre o potencial da oferta de trabalho não utilizada. Paralelamente, estes dados sugerem que as pressões inflacionárias nos EUA não estão a evoluir ao ritmo esperado.

Esta semana, estão previstas intervenções de vários membros da Fed, a par das sempre imprevisíveis declarações e ações da Administração Trump. Como habitualmente, estaremos atentos a todos os indícios suscetíveis de clarificar a natureza, o volume ou a data de implementação do prometido pacote de estímulos orçamentais e investimentos em infraestruturas.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.