Entrevista à 'Vida Económica': fatores de natureza política suplantam económicos nos mercados cambiais

Duarte Líbano Monteiro05/Feb/2017Comércio Internacional

Entrevista à ‘Vida Económica’ | Por Duarte Líbano Monteiro, diretor-geral na Península Ibérica da Ebury

Os fatores de natureza política vão suplantar os económicos em 2017 na influência dos mercados cambiais, de acordo com Duarte Líbano Monteiro, diretor-geral na Península Ibérica da Ebury, empresa especializada em pagamentos internacionais, focada nos câmbios de moeda estrangeira.

Geralmente, vemos os mercados reagir a fatores económicos (crescimento do país, dados de emprego, salários, inflação, etc.). No entanto, este ano, estaremos especialmente atentos a fatores de natureza política, os quais poderão criar un cenário de incerteza e volatilidade semelhante ao que vimos em 2016, como por exemplo as eleições francesas ou mesmo as eleições alemãs.

Duarte Líbano Monteiro, em entrevista à ‘Vida Económica’

1.- Que cautelas principais devem ter as empresas que pretendem vender os seus produtos para mercados internacionais?

DLM – O comércio internacional pode trazer maiores oportunidades para as empresas nacionais, mas também traz outros tipos de riscos. O mais importante é identificá-los e tentar mitigá-los ao máximo. Existem riscos financeiros, comerciais, logísticos, etc. Na Ebury estamos especializados na gestão do risco cambial. Qual é a sua importância?

Se uma empresa decide aumentar a sua oferta a outros países, ao incluir a importação como parte do seu processo produtivo ou desenvolver projectos no estrangeiro é porque estudou a viabilidade das operações e existe uma margem comercial de retorno interessante. No entanto, se uma empresa não cobriu o seu risco cambial (na sua totalidade ou apenas numa percentagem) seis meses depois, quando tenha que repatriar fundos e converter os seus lucros para euros (por exemplo), a taxa de câmbio pode ter flutuado até ao ponto de perder a totalidade da margem comercial e consequentemente a rentabilidade da operação.

Sempre existe um risco cambial, que se deve conhecer com a finalidade de proteger a margem da operação. Ao fim ao cabo, o objectivo de uma empresa deve ser desenvolver a sua actividade e não especular na incerteza dos mercados financeiros.

2.- Ainda há empresas a irem às cegas?

DLM – Não, acreditamos que às empresas lhes interessa estar bem informadas para tomar melhores decisões para os seus negócios no estrangeiro. O problema é que muitas vezes há demasiada informação e demasiados produtos, pouco adaptados às situações reais de cada empresa.

No nosso dia-a-dia, o nosso trabalho concentra-se em ouvir o cliente sobre que operações está a desenvolver, em que setor, com que prazos, em que moedas, como é o perfil dos seus clientes e fornecedores estrangeiros, etc., assim podemos oferecer-lhe uma proposta personalizada e criar em conjunto uma estratégia de cobertura única

3.- Que importância têm empresas como a Ebury, focadas em garantir uma maior certeza quanto ao futuro do negócio de qualquer empresa?

DLM – Empresas como a Ebury terão como mais-valia uma maior especialização num segmento específico do setor financeiro. Deste modo, no caso da Ebury, torna-se possível um conhecimento mais aprofundado sobre gestão de risco cambial. Alguns critérios diferenciadores são:equipa especialista no mercado cambial; gestor de conta a acompanhar pró-activamente cada cliente, com experiência na moeda que este esteja a utilizar: estratégias personalizadas de gestão de risco, permitindo fixações cambiais por um período que poderá ir até 3 anos; preço mais competitivo em mais de 140 moedas; infraestruturas tecnológicas próprias através das quais se processam os pagamentos/recebimentos de moeda estrangeira dos clientes permitindo, assim, uma maior agilidade e segurança.

4.- Como foi 2016 para a Ebury?

DLM – Em 2016 a Ebury continuou a expandir-se a nível europeu, onde atualmente apoia mais de 12.000 empresas em toda a Europa na sua gestão de câmbios.

No caso de Portugal, 2016 foi um ano muito importante. A Ebury entrou no mercado português no verão de 2015, e fechamos o ano de 2016 com mais de 180 clientes, principalmente empresas exportadoras e importadoras do norte e sul do país e de diversos sectores, tais como industrial, construção, têxtil, alimentação, etc. Desta forma, o balanço é muito positivo.

5.- Quais são as vossas metas para 2017?

DLM – A nossa meta é chegar a ser uma referência para as empresas portuguesas que, submersas em aventuras de comércio internacional, necessitam realizar pagamentos ou cobranças em moeda estrangeira, assim como cobrir a sua exposição através de fixação de câmbios.

Continuaremos a investir em Portugal: a crescer a equipa e a lançar novos produtos. O mais imediato será o lançamento da plataforma online para que os clientes possam realizar as suas próprias operações de pagamento ou cobrança em moeda estrangeira ou simplesmente fazer seguimento das operações que fecharam com o gestor de conta por telefone.

Além disso, estamos a planear o lançamento de produtos complementares para comércio internacional, como por exemplo o financiamento a importadores.

6.- 2017 começa com a tomada de posse de Donald Trump nos EUA, e com o Reino Unido a acelerar o Brexit. Qual o impacto esperado destes dois acontecimentos no comércio global?

DLM – Nos próximos tempos será de esperar uma contínua valorização do dólar face às principais moedas, em particular face ao euro.
Este fortalecimento do dólar será consequência das divergência verificadas entre as políticas monetárias dos Estados Unidos, com uma contínua subida das taxas de juro, enquanto que o BCE irá manter as taxas de juro inalteradas.
Porém, esta valorização do dólar dependerá dos movimentos da administração de Trump, dado a incerteza que o seu governo tem vindo a gerar nos mercados.

No Reino Unida deparamo-nos com uma situação semelhante relativamente ao tema do Brexit. Os mercados têm flutuado ao compasso das declarações de Theresa May sobre como irá concretizar o Brexit.

Geralmente vemos os mercados reagir a fatores económicos (crescimento do país, dados de emprego, salários, inflação,…). No entanto, este ano estaremos especialmente atentos a fatores de natureza política, os quais poderão criar um cenário de incerteza e volatilidade semelhante ao que vimos em 2016, como por exemplo as eleições francesas ou mesmo as eleições alemãs.

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Written by Duarte Líbano Monteiro

Diretor Geral da Ebury Ibéria. Profissional com vasto conhecimento acerca da indústria financeira e com mais de 10 anos em experiência em gestão e direção de vendas. Lidera a forte expansão da Ebury para o mercado de Portugal e Espanha.