Mercado bolsista estabelece novo recorde, impulsionando a Libra e as moedas dos mercados emergentes

Enrique Díaz-Álvarez30/Jan/2017Análise do Mercado de Câmbios

Numa semana invulgarmente calma em termos de decisões políticas e dados económicos significativos, os mercados cambiais viraram as atenções para outros fatores, tendo reagido, em particular, ao regresso generalizado da apetência pelo risco nos mercados financeiros. As esperanças renovadas de que a redução de impostos de Donald Trump dê ganhos inesperados às ações norte-americanas fizeram disparar os mercados acionistas. Mais precisamente, o índice Dow Jones quebrou de forma inequívoca a barreira psicológica dos 20.000 pontos. As taxas de câmbio cruzadas das moedas do G10 mantiveram-se em intervalos estreitos num contexto de fraca negociação, com exceção da Libra que voltou a valorizar a par das moedas dos mercados emergentes. De referir que esta correlação positiva entre a Libra e as moedas de maior risco dos mercados emergentes deve ser seguida com atenção.

Surpreendentemente, o melhor desempenho pertenceu sem dúvida alguma ao Peso mexicano, que conseguiu valorizar, não obstante a intensificação do conflito político entre a Administração Trump e o Governo do México. Os mercados parecem considerar que o pior cenário em termos de perturbação das trocas comerciais entre o México e os EUA já está a ser descontado por uma moeda que perdeu 13% desde as eleições norte-americanas.

Esta semana, a agenda dos acontecimentos regressa em grande. Na terça-feira tem lugar a reunião de política monetária do Banco do Japão, seguindo-se a reunião da Reserva Federal na quarta-feira e a do Banco de Inglaterra na quinta-feira. A encerrar o que promete ser uma semana de grande volatilidade, na sexta-feira são divulgados os sempre importantes dados mensais do mercado de trabalho norte-americano.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE

EUR

Os únicos dados de relevo divulgados esta semana dizem respeito ao PIB do quarto trimestre. A taxa de inflação global deverá situar-se em 0,5% face ao mesmo trimestre do ano anterior, superando assim em 0,1% as expectativas e proporcionando mais uma surpresa positiva na Zona Euro. Importa, contudo, notar que se trata de um indicador atrasado, tendo por isso uma capacidade reduzida de influenciar os mercados. Esta semana, a evolução da moeda única estará muito mais dependente dos acontecimentos do outro lado do Atlântico, nomeadamente a reunião de fevereiro do Comité FOMC da Reserva Federal e a divulgação dos dados de janeiro do mercado de trabalho norte-americano, na sexta-feira.

GBP

A valorização acentuada da Libra, desde os mínimos atingidos em meados de janeiro, tem sido conduzida por uma conjugação de fatores, como a subavaliação global da moeda, um sentimento de mercado demasiado baixista e uma melhoria geral da apetência pelo risco nos mercados financeiros. O verdadeiro teste a esta valorização será na quinta-feira, data da reunião de fevereiro do Banco de Inglaterra – um assunto que deverá substituir temporariamente o tema do Brexit nos grandes destaques noticiosos. A nossa expectativa é que a trajetória esperada da inflação evidencie uma subida significativa, a par de uma retórica de um modo geral mais agressiva da parte do Comité de Política Monetária. Se o ambiente geral nos mercados continuar positivo, é muito possível que se venha a assistir a novas valorizações de curto prazo da Libra.

USD

Na semana passada, os dados do PIB do quarto trimestre, com um crescimento de 1,9%, ficaram ligeiramente aquém das expectativas, penalizados por um défice comercial acima do esperado. Mais importante do que este indicador atrasado será o comunicado divulgado após a reunião do Comité FOMC, na quarta-feira, que deverá incluir uma atualização das previsões para a inflação e o mercado de trabalho. Apesar de não se prever uma mudança clara da política monetária, nem uma atualização dos importantes gráficos “dot plots” (o que acontece apenas em reuniões alternadas), os membros da Reserva Federal têm assumido ultimamente um tom mais agressivo nas suas declarações. Não nos parece que esta inflexão mais agressiva esteja a ser totalmente descontada pelo mercado, pelo que poderemos assistir a uma valorização significativa do Dólar na segunda metade desta semana.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.