Discurso de Theresa May e dados positivos da inflação e salários no Reino Unido suportam a Libra

Enrique Díaz-Álvarez23/Jan/2017Análise do Mercado de Câmbios

A Libra foi a grande surpresa da semana passada, tendo registado uma forte subida após o muito aguardado discurso de Theresa May, na terça-feira, num exemplo claro do que é negociar segundo a máxima “buy the rumor, sell the fact”. A Libra beneficiou de um suporte adicional no final da semana, com a divulgação de dados positivos para a inflação e os salários do Reino Unido, o que vem ao encontro da nossa expectativa de que a subida das taxas do Banco de Inglaterra se afigura cada vez mais provável. O Dólar dos Estados Unidos teve uma semana mista, pressionado em sentidos opostos pelas declarações em tom mais agressivo da Presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, e pelo comentário inopinado de Donald Trump sobre um Dólar “demasiado forte”.

O desempenho mais fraco da semana pertence ao Dólar canadiano, num contexto caracterizado pelo discurso extremamente expansionista assumido na reunião de política monetária do Banco do Canadá, preocupado com a incerteza e o possível efeito negativo do protecionismo de Trump na economia canadiana.

As atenções viram-se agora para a decisão do Supremo Tribunal, no Reino Unido, anunciada amanhã de manhã, sobre a necessidade de submeter o processo do Brexit à aprovação parlamentar, bem como para qualquer informação concreta divulgada sobre as políticas económicas da Administração Trump.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE

EUR

O Euro, que se tem mantido de um modo geral afastado dos títulos noticiosos, evoluiu para um intervalo de negociação bastante estreito. A semana passada não foi exceção. O discurso de Draghi assumiu um tom expansionista. O Banco Central Europeu (BCE) não observa indícios de melhoria na inflação subjacente e deverá assistir a uma aceleração da inflação global. Além disso, Draghi apresentou um novo foco determinante para o BCE. Além do nível geral da inflação na Zona Euro, as divergências entre as taxas de inflação dos diferentes países estão igualmente sob vigilância do banco central. Muito embora o impacto a curto prazo de declarações tão pessimistas tenha sido atenuado pelo lamento de Trump sobre a força do Dólar, é evidente que a divergência entre as políticas monetárias dos dois lados do Atlântico vai persistir pelo menos até 2018.

GBP

Uma série de rumores preparou os mercados para um discurso de Theresa May de teor extremamente agressivo a propósito da posição do Reino Unido nas negociações sobre o Brexit. Afinal o discurso revestiu-se de um tom ligeiramente mais conciliador do que os mercados esperavam, o que – aliado à posição bastante ampla do consenso que se formou contra a Libra e a sua cotação objetivamente baixa – originou um forte movimento de valorização desta moeda, associado à cobertura de posições de venda a descoberto (short-covering). Os dados da inflação e dos salários constituíram outra surpresa positiva do ponto de vista económico, reforçando a ideia de que o impacto do Brexit a curto e médio prazo resultará sobretudo da depreciação da moeda e do subsequente efeito refletido na atividade e nos preços. De referir que a taxa de inflação subjacente, agora em 1,6%, já não está muito longe das metas fixadas pelo Banco de Inglaterra. O forte crescimento dos salários e o efeito persistente da depreciação da moeda continuarão a exercer uma pressão de subida na taxa de inflação, sendo de esperar que, nas próximas semanas, se comece a falar cada vez mais sobre futuras subidas das taxas do Banco de Inglaterra.

USD

A tomada de posse do Presidente Trump deu-nos uma grande dose de retórica indignada mas pouco esclareceu sobre as políticas específicas a implementar em três áreas decisivas: impostos, investimento em infraestruturas e protecionismo. Numa semana que deverá ser bastante parca em notícias e dados económicos dos Estados Unidos, as atenções estarão centradas em toda e qualquer informação que chegue aos mercados sobre medidas específicas nestes três domínios. As famigeradas mensagens de Trump no Twitter continuarão a influenciar os mercados, incluindo os mercados cambiais.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.