Dados positivos do emprego nos EUA penalizam Euro; dados da China em foco

Enrique Díaz-Álvarez09/Jan/2017Análise do Mercado de Câmbios

A semana passada começou com o tipo de recuperação contrária à tendência que, geralmente, se desenvolve quando a posição do consenso (neste caso, a apreciação do Dólar) fica temporariamente demasiado concorrida. As principais moedas valorizaram face ao Dólar, sobretudo o Euro e as moedas dependentes das matérias-primas, como o Real do Brasil e o Dólar australiano. No entanto, a publicação do relatório do mercado de trabalho de dezembro, nos EUA, com dados claramente fortes, interrompeu este movimento de valorização. No fecho da sessão de sexta-feira, o Dólar já tinha recuperado a maior parte das perdas.

A moeda com pior desempenho da semana foi o Peso mexicano, empurrado para outro mínimo histórico face aos sinais de que a propensão de Donald Trump para o protecionismo não é mera retórica.

Esta semana adivinha-se tranquila em ambos os lados do Atlântico. Vamos receber uma verdadeira avalanche de dados da China e esperamos uma reação forte dos mercados financeiros a eventuais surpresas. Os números da inflação, financiamento e comércio da China são especialmente críticos. Além da China, estarão em foco a divulgação das atas da última reunião do BCE e as audições de confirmação dos nomeados de Trump nos EUA.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE

EUR

Os indicadores económicos divulgados para a Zona Euro vieram confirmar uma inversão positiva forte e sustentada. Tal como no Reino Unido, os índices de sentimento das empresas relativos a dezembro melhoraram significativamente e mostram-se, agora, compatíveis com um crescimento da ordem dos 2-2,5%. Determinante para o BCE foi a retoma observada na inflação do mês passado. Excluindo os componentes mais voláteis, a inflação subjacente cresceu 0,1%, para os 0,9%, em termos homólogos. Ainda que continue demasiado baixa para o BCE, estamos convictos de que os níveis mínimos pertencem ao passado e a tendência atual é firmemente positiva.

Numa altura em que se aguarda a publicação das atas da reunião do BCE de dezembro os mercados vão estar atentos a indícios quanto ao nível de consenso em torno das medidas de alteração introduzidas e, em particular, ao grau de oposição que tais medidas enfrentaram da parte do Bundesbank.

GBP

No Reino Unido, a série extraordinária de surpresas positivas no pós-Brexit continua inabalável. Os indicadores PMI do sentimento das empresas referentes a dezembro registaram, todos, uma forte e inesperada melhoria. A Libra não beneficiou tanto quanto seria de esperar desta evolução positiva, tendo em conta que a demissão do embaixador britânico na União Europeia foi interpretada pelos mercados como um sinal negativo para as perspetivas de manutenção do acesso ao mercado único por parte do Reino Unido. Esta semana é muito pouco preenchida em termos de publicação de dados do Reino Unido e a Libra deverá retomar a sua posição intermédia entre o Dólar norte-americano e o Euro, reagindo a desenvolvimentos externos.

USD

O movimento de venda (sell off) que se registava no Dólar norte-americano foi interrompido na sexta-feira com a divulgação de números novamente fortes para o mercado de trabalho dos EUA. A criação de emprego saldou-se em 156.000 postos de trabalho, além de revisões positivas dos números publicados nos meses anteriores. Talvez mais importante é o facto de a maior contração do mercado de trabalho começar claramente a refletir-se na subida dos salários, que cresceram 2,9% em 2016, a taxa mais elevada desde a crise financeira de 2008/2009. As taxas de desemprego e de participação da população ativa também evidenciaram, em geral, uma melhoria. Este relatório significa que a nossa previsão de, pelo menos, três aumentos das taxas de juro da Fed e de valorização contínua do Dólar no primeiro semestre de 2017, se mantém válida.

Esta semana, a política vai estar em destaque. O Senado dos EUA realiza as audições de aprovação dos nomes escolhidos por Donald Trump para a sua equipa governamental. A maioria republicana deverá provavelmente garantir a aprovação de todos os nomeados, mas o fator determinante serão as declarações e os comentários sobre os planos que defendem para a política comercial e económica. A falta de pormenores, até agora, sobre as prioridades da política de Trump significa que os mercados cambiais podem apresentar uma volatilidade significativa à medida que vão sendo conhecidas mais informações.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.