Dólar valoriza com postura interventiva da Reserva Federal

Enrique Díaz-Álvarez19/Dec/2016Análise do Mercado de Câmbios

Temos vindo aqui a insistir na extrema importância do gráfico “dot plot” de dezembro, da Reserva Federal, a representação gráfica das perspetivas de cada membro do Comité da Fed relativamente à trajetória mais provável das taxas de juro durante os próximos três anos. Ora, na semana passada, os mercados cambiais deram-nos totalmente razão. Se, por um lado, a subida das taxas de juro da Fed foi, no fundo, um “não-acontecimento”, ao corresponder a todas as expectativas, por outro lado, o gráfico “dot plot” comunicou aos mercados que a Fed espera agora aumentar as taxas de juro a um ritmo consideravelmente mais rápido do que projetava em setembro. Com estas notícias, o Dólar disparou e terminou a semana a valorizar face a todas as moedas dos países do G10. A moeda que mais perdeu foi o Iene, restabelecendo-se assim a tradicional relação entre a taxa USD/JPY e as taxas de juro norte-americanas.

O Euro está muito perto da meta que tínhamos definido para o final de 2016. O calendário noticioso até janeiro está muito pouco preenchido e os mercados cambiais são habitualmente tranquilos na segunda quinzena de dezembro, durante as férias de Natal. Ainda assim, a nossa expectativa é que o Dólar continue a valorizar ao longo do primeiro semestre de 2017 e quebre a paridade com o Euro pouco depois do Ano-Novo. Esta nossa opinião tem por base o facto de as taxas de juro dos EUA ainda terem espaço para subir até estarem em linha com as projeções da Reserva Federal, enquanto, na Europa, não se antevê qualquer possibilidade de aumento das taxas de juro, pelo menos até 2018.

EUR

Os índices de confiança das empresas na Europa continuam a recuperar e apontam para um maior crescimento nos próximos meses. A conjugação de fatores como a política monetária ultraflexível do BCE e a depreciação da moeda continuará a fornecer o muito necessário impulso às economias da Zona Euro. No entanto, nos próximos meses, a evolução da moeda será determinada pelos diferenciais das taxas de juro, pelo que não consideramos que esta melhoria da conjuntura económica seja suficiente para alterar as perspetivas de desvalorização do Euro. Ainda assim, a melhoria do ambiente económico na Zona Euro durante os últimos meses merece, sem dúvida, a nossa atenção.

GBP

Na semana passada, a divulgação de uma série de dados positivos permitiu que a Libra resistisse melhor do que a maioria das outras moedas principais, face à forte valorização do Dólar. O Banco de Inglaterra adotou, também ele, uma postura mais agressiva do que os mercados esperavam, enquanto os dados das vendas a retalho foram outra surpresa positiva. A nossa posição de que a próxima decisão do Banco de Inglaterra em relação às taxas será uma subida (mas não num futuro próximo) é inteiramente legítima e entendemos que a valorização da Libra face ao Euro ainda está longe de terminar.

USD

Correspondendo a todas as expectativas, o Comité FOMC da Reserva Federal decidiu, por unanimidade, aumentar a taxa de juro overnight 0,25%. Também se confirmou assim a nossa expectativa de que a Fed assumiria uma postura mais agressiva nas suas projeções, em relação à reunião de setembro. A projeção média dos membros do Comité FOMC, segundo o gráfico “dot plot” é agora de três subidas das taxas em 2017, em comparação com as duas antecipadas em setembro. Além disso, foram apresentadas pequenas revisões em alta das projeções para o crescimento e o emprego.

É, sem dúvida, um contexto favorável à valorização do Dólar. De salientar que os níveis das taxas de juro a curto prazo nos mercados norte-americanos ainda estão consideravelmente abaixo das expectativas da própria Reserva Federal. À medida que a subida gradual vai corrigindo estas expectativas, o fosso cada vez maior entre as políticas monetárias dos dois lados do Atlântico deverá continuar a penalizar o Euro, pelo que mantemos a previsão de uma quebra da paridade no EUR/USD no primeiro trimestre de 2017.

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.