Reserva Federal aumenta taxas de juro e sinaliza mais subidas em 2017

Enrique Díaz-Álvarez15/Dec/2016Análise do Mercado de Câmbios

A Reserva Federal subiu a taxa de juro de referência, esta quarta-feira, pela segunda vez desde a crise financeira, correspondendo às nossas expectativas e às do esmagador consenso do mercado.

A taxa dos fundos federais subiu 25 pontos base, para um intervalo de 0,5% a 0,75%, após ter-se mantido inalterada durante um ano, na sequência do anterior aumento, em dezembro de 2015. Esta subida imediata da taxa de juro foi decidida por unanimidade pelos dez membros do Comité.

Muito embora a subida das taxas já estivesse totalmente descontada pelo mercado, havia alguma incerteza quanto à posição da Fed em relação a futuros aumentos. A autoridade de política monetária dos EUA reviu em alta as expectativas para a futura evolução das taxas de juro em 2017, fazendo o Dólar norte-americano disparar face às principais moedas.

O gráfico “dot plot” da Fed, que traça as expectativas de cada membro do Comité para a trajetória das taxas até ao final de cada ano, mostra que o Comité FOMC prevê, em média, três subidas de taxas de juro em 2017, em comparação com as duas projetadas em setembro. Dos 17 membros do Comité, 11 consideraram que a Fed aumentará as taxas por três vezes ao longo do próximo ano, uma posição um pouco mais intervencionista do que o mercado antecipava.

Figura 1: Gráfico “dot plot” de dezembro do Comité FOMC

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A Presidente da Reserva Federal, Janet Yellen, manteve um tom bastante cauteloso na conferência de imprensa, tendo desvalorizado essa alteração nas projeções para as taxas de juro como uma ligeira mudança de entendimento de vários membros do Comité. Reconheceu, no entanto, os progressos «consideráveis» realizados na economia dos EUA, que assinalam a melhoria do mercado do trabalho e da inflação. O comunicado não fez qualquer referência explícita aos planos de Donald Trump para um aumento da despesa pública e para a redução dos impostos no próximo ano. É muito pouco provável que a Fed comente tais alterações antes de uma maior clarificação dos planos de Trump, o que só acontecerá após o início da sua presidência em janeiro.

A Reserva Federal anunciou ainda uma atualização, ainda que ligeira, da previsão de crescimento para o próximo ano. O crescimento do PIB em 2017 deverá agora atingir 2,1%, em comparação com a anterior estimativa de 2%, mantendo-se a previsão de crescimento de 2% para 2018.

Na passada quarta-feira, a posição da Fed, mais agressiva do que era esperado, fez o Dólar norte-americano valorizar face a quase todas as principais moedas e moedas emergentes. O índice do Dólar dos EUA subiu para máximos de 14 anos e o Iene japonês desceu 2%, para mínimos de 10 meses, enquanto o Euro caiu para o seu nível mais baixo desde março de 2015 (Figura 2).

Figura 2: EUR/USD (14/12/2016 – 15/12/2016)

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Consideramos que os riscos associados a um ritmo mais rápido de subida das taxas de juro da Reserva Federal se mantêm ligeiramente positivos, na sequência da vitória eleitoral de Donald Trump, em novembro. Muito embora aquilo com que Trump se comprometeu durante a campanha eleitoral nunca fosse muito claro, a sua promessa de aumento da despesa poderá significar o investimento de 1 bilião de dólares em infraestruturas, aliado a uma série de cortes generalizados nos impostos. Ainda que tais planos possam implicar um agravamento significativo do défice público no próximo ano, o efeito a curto prazo no crescimento deverá ser positivo e poderá encorajar a Fed a assumir uma abordagem ainda mais agressiva na contração da política monetária. Assim sendo, há uma forte probabilidade de, em 2017, assistirmos a um aumento das taxas de juro com uma frequência praticamente trimestral.

A posição relativamente agressiva adotada ontem pela Reserva Federal vem reforçar a nossa previsão de que uma subida gradual das taxas de juro nos EUA conduzirá a uma apreciação continuada do Dólar norte-americano face a quase todas as principais moedas no próximo ano. Mantemos, por isso, a expectativa de que o Dólar atinja a paridade com o Euro durante o primeiro trimestre de 2017 e é evidente que o mercado está a assimilar cada vez mais essa possibilidade.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.