Euro afunda com posição expansionista do BCE; mercados na expectativa da subida das taxas da Fed na quarta-feira

Enrique Díaz-Álvarez12/Dec/2016Análise do Mercado de Câmbios

A inesperada mensagem de política expansionista, saída da reunião de dezembro do Banco Central Europeu, castigou o Euro na semana passada. A extensão por mais nove meses do programa de aquisição de ativos do BCE, acrescida de uma admissão clara da possibilidade de um novo prolongamento do prazo, significa que as taxas negativas europeias se vão manter, pelo menos, até 2018. Por outro lado, a Reserva Federal prepara-se para uma subida das taxas de juro esta semana, a qual, como esperamos, deverá ser acompanhada por uma revisão em alta das expectativas para o calendário de aumentos em 2017.

O consequente alargamento dos diferenciais entre as taxas dos dois lados do Atlântico está a colocar uma pressão intensa sobre o Euro – que, na semana passada, desvalorizou face a todos os seus pares principais.
Além das moedas dos países do G10, as ações e o crédito continuaram a quebrar máximos históricos. O ambiente festivo estendeu-se às moedas dos mercados emergentes, em particular às dos países da América Latina, que registaram uma forte valorização face ao Euro, na semana passada.

PRINCIPAIS MOEDAS EM DETALHE

EUR

A verdadeira caixinha de surpresas da política expansionista com que o BCE nos brindou fez afundar o Euro, na quinta-feira passada.

  • Primeiro, o programa de estímulos monetários foi prolongado por mais 9 meses, em vez dos esperados 6 meses. Ainda que o volume das compras de obrigações tenha reduzido de 80 mil milhões para 60 mil milhões de euros por mês, o balanço final implica a aquisição de nada mais nada menos que 540 mil milhões de euros, em vez de 480 mil milhões de euros.
  • Outra surpresa de cariz expansionista foi a retirada do limite mínimo das taxas de juro. Desta forma, o BCE poderá comprar obrigações, mesmo que estejam a render menos do que a taxa de juros dos depósitos, atualmente definida em -0,4%.
  • Além disso, as previsões para a inflação mantiveram-se praticamente inalteradas, contrariando muitos economistas, que previam, no mínimo, uma ligeira revisão em alta.

Apesar de mais expansionista do que se esperava, este resultado não altera significativamente as nossas perspetivas de uma depreciação continuada do Euro, que deverá quebrar a paridade durante o primeiro trimestre 2017.

GBP

Os indicadores de curto prazo sobre a saúde da economia do Reino Unido continuam a traçar um quadro mais positivo do que se esperava após o Brexit.

Os índices PMI da confiança das empresas continuam a superar as expectativas. Nos 55,2 pontos, o índice compósito dos setores da indústria e dos serviços é mais compatível com um aumento do PIB da ordem dos 3% do que dos 2%. É por isso provável que, na reunião desta quinta-feira, o Banco de Inglaterra mantenha a sua política monetária inalterada e que a mensagem subjacente denote uma posição entre neutral e de contração monetária. Se a tal resultado se juntarem – como acreditamos – números mais fortes do que os previstos para a inflação e o emprego, é bem possível assistir, esta semana, a uma valorização da Libra, pelo menos face ao Euro.

USD

As surpresas positivas nos números de outubro das encomendas ao setor industrial e das encomendas de bens duradouros vêm reforçar a nossa opinião de que a economia dos EUA está a crescer rapidamente, mesmo antes de quaisquer medidas de estímulo orçamental ou investimento em infraestruturas da Administração Trump.

Muito embora os mercados já tenham antecipado um aumento de 0,25% nas taxas de juro da Reserva Federal, esta semana, os operadores vão escrutinar as declarações do Comité FOMC após a reunião. Como sempre, consideramos que a informação mais determinante é dada pelo gráfico “dots plot”, que sintetiza as perspetivas dos membros do Comité para a evolução futura das taxas de juro.

A expectativa aponta para a primeira revisão em alta dessa evolução, em vários anos. Em nosso entender, os mercados ainda não anteciparam este facto, pelo que a reunião deverá dar um novo impulso ao Dólar face aos principais pares do G10.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.