Mercados cambiais em compasso de espera, na expectativa dos dados do trabalho nos EUA e referendo em Itália

Enrique Díaz-Álvarez28/Nov/2016Análise do Mercado de Câmbios

Os mercados cambiais decidiram fazer uma pausa na volatilidade intensa a que temos assistido desde a eleição presidencial nos EUA. O Euro conseguiu recuperar dos mínimos de dois anos face ao Dólar dos EUA e terminou a semana praticamente inalterado, à semelhança da Libra Esterlina e da maioria das moedas europeias. Por outro lado, assistimos a divergências pouco habituais entre as moedas dos mercados emergentes, com fortes subidas no Rand da África do Sul e no Won da Coreia do Sul, contrabalançadas por quedas igualmente acentuadas no Real do Brasil e na Lira turca.

Durante a semana, as atenções dos investidores estarão centradas no referendo que se realiza em Itália este domingo. Consideramos, todavia, que a vitória do “não” já foi amplamente descontada pelos mercados e, em reação, não esperamos mais do que uma ligeira quebra no Euro. Uma vitória do “sim”, mais favorável ao sistema, conduziria, sem dúvida, a uma recuperação de curto prazo da moeda única, embora este resultado seja o menos provável, tendo em conta que as últimas sondagens dão vantagem ao “não”.

EUR

Ultimamente não se tem dado muita atenção à economia da Zona Euro e por uma boa razão: os acontecimentos políticos que têm estado em evidência a nível mundial. No entanto, é de destacar a melhoria significativa, observada na semana passada, no indicador avançado mais relevante para o crescimento – o índice de confiança das empresas PMI. O índice compósito dos setores da indústria e dos serviços recuperou inesperadamente para 54,1 pontos, um máximo de 2016. As pressões de curto prazo sobre o Euro continuarão a crescer, à medida que as taxas de juro nos EUA vão subindo e os riscos políticos se intensificam; ainda assim, um impulso no crescimento acima dos 2% em 2017 é uma forte possibilidade, tendo em conta estes números do nível de confiança e a recente depreciação do Euro.

GBP

A reação da Libra à Declaração de Outono foi moderadamente positiva. Verificou-se uma grande revisão em alta das projeções dos montantes de financiamento para os próximos anos, devido às previsões de menor crescimento económico no pós-Brexit. Embora não seja propriamente uma decisão surpreendente, é mais um passo no recuo das políticas de austeridade que se regista a nível mundial, sendo de realçar que, no caso dos EUA, a reação dos mercados cambiais foi positiva.

Esta semana, a Libra fica em segundo plano, dada a inexistência de acontecimentos significativos no calendário económico e monetário. Assim sendo, a Libra reagirá sobretudo a notícias externas, em particular ao relatório do mercado de trabalho dos EUA, divulgado na sexta-feira.

USD

O relatório do mercado de trabalho de novembro, divulgado na sexta-feira, não deverá afetar a decisão quase certa da Reserva Federal de aumentar as taxas de juro em dezembro, mas não deixará de influenciar os mercados cambiais. Um relatório com dados fortes, nomeadamente uma criação de emprego acima dos 200.000 postos de trabalho e, sobretudo, um crescimento salarial em aceleração até aos 3%, pressionaria seriamente os membros do Comité FOMC no sentido de reverem em alta as projeções para o crescimento, a inflação e os salários nos EUA e, por conseguinte, os futuros aumentos das taxas da Fed. Os restantes indicadores económicos norte-americanos (vendas a retalho, mercado imobiliário, bens duradouros, etc.) têm, na sua maioria, evidenciado sinais de aceleração, pelo que não nos surpreenderia se o mercado de trabalho confirmasse, na sexta-feira, esta tendência de aceleração.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.