Queda do Dólar em clima de agitação pré-eleitoral nos EUA

Enrique Díaz-Álvarez07/Nov/2016Análise do Mercado de Câmbios

Na semana passada, o Dólar viveu tempos muito difíceis face aos seus pares do G10, num ambiente de crescente incerteza em relação aos resultados das eleições presidenciais nos EUA, que penalizou os mercados financeiros a nível mundial. As ações, as matérias-primas e as moedas dos mercados emergentes registaram um forte movimento de vendas (sell off) ao longo da semana.

Todos os olhos estão agora postos na noite eleitoral nos EUA, esta terça-feira. As sondagens e os indicadores da votação antecipada, divulgados no fim-de-semana, parecem favorecer Hillary Clinton e, à data deste texto, os mercados de apostas estão a atribuir 80% de probabilidades à vitória dos Democratas. O conceituado site de estatísticas – 538.com/politics – reduziu ligeiramente as probabilidades da candidata, aproximadamente de 2 para 3, embora as estimativas da maioria dos restantes analistas apontem para resultados mais elevados.

Que dizem as sondagens de última hora?

As sondagens mais recentes reduziram de forma drástica a diferença de probabilidade de vitória entre ambos os candidatos. No entanto, este domingo ficámos a saber que o FBI não pretende voltar a investigar o caso dos e.mails de Hillary Clinton, o que resultou numa subida das suas probabilidades de vitória. As últimas sondagens colocam Hillary à frente de Trump no entanto com uma vantagem ligeira, que deverá ser ampliada devido à composição do sistema de colégio eleitoral americano.

Gráfico 1: Vantagem de Clinton face a Trump nas sondagens (abril – novembro 2016)

2. US

Quando se vai saber o resultado final das eleições?

Não contando com qualquer incidência, recontagem de votos ou problema que possa atrasar o anuncio dos resultados, com grande probabilidade vai-se conhecer o nome do próximo presidente dos Estados Unidos à 1 da manhã (hora portuguesa), que será quando se vai saber os resultados da Pensilvânia e Michigan. O resultado definitivo deve de ser anunciado com grande probabilidade de certeza entre as 4 e 5 da manhã (hora portuguesa) de quarta-feira 9 de novembro.

Eleições nos Estados Unidos num contexto de emprego positivo.

O relatório do mercado de trabalho referente a outubro acabou por ser completamente suplantado pelo clima de agitação eleitoral que se vive nos Estados Unidos. Foi um relatório extremamente sólido, que toca em todos os pontos certos para os defensores de uma política mais restritiva da Reserva Federal. A taxa de inflação global ficou ligeiramente aquém das expectativas, o que se deveu essencialmente a revisões em alta dos números de meses anteriores. Há ainda a registar um ligeiro decréscimo do desemprego, para 4,9%, enquanto os salários continuaram a subir e crescem agora a uma taxa anual de 2,8%. Este relatório vem confirmar a nossa ideia de que, salvo um colapso financeiro, a Reserva Federal se prepara para decidir o segundo aumento das taxas de juro desde 2008, na sua reunião de dezembro.

Moedas europeias: euro e libra

Depois, a meio do dia, o Banco de Inglaterra surpreendeu os mercados (mas não a nós) ao afastar-se da tendência dos estímulos monetários e ao anunciar que a política de compromisso entre inflação e crescimento tinha atingido um ponto de equilíbrio. Estes dados positivos, a extrema subvalorização da Libra nos níveis atuais e o volume maciço de posições curtas nos mercados foram fatores suficientes para desencadear uma recuperação semanal da ordem dos 3%. Consideramos que esta recuperação deverá prosseguir, assim que for ultrapassado o risco associado às eleições norte-americanas de terça-feira.

Na passada quinta-feira, a Libra beneficiou de um duplo impulso. No início da manhã, o Tribunal Superior decidiu que é necessária a aprovação do Parlamento para acionar o Artigo 50 e assim iniciar o processo de saída formal da União Europeia. Como é evidente, a decisão ainda será objeto de recurso junto do Supremo Tribunal. Por outro lado, esta decisão deixou bem claro que o Governo de Theresa May ficará numa situação muito difícil se não existir um consenso político e institucional em torno de um “hard Brexit”, o que no fundo é uma boa notícia para a Libra.

A Zona Euro manteve-se em segundo plano na semana passada. Ainda assim, foram divulgados alguns dados macroeconómicos importantes: as estimativas do PIB do terceiro trimestre, que coincidiram (como é habitual) com as previsões de uma taxa débil de 1,2% em termos anualizados, e a inflação de outubro, que permaneceu no nível dececionante de 0,5%. Ambos os dados foram ofuscados pelos acontecimentos que se desenrolaram no Reino Unido e, em especial, nos EUA – uma situação que se deverá repetir esta semana, com o Euro a transacionar, sobretudo, em relação ao resultado das eleições norte-americanas. Continuamos a antecipar uma vitória de Clinton, bem como uma ligeira valorização do Dólar. No entanto, uma reviravolta a favor de Trump forçaria, decerto, uma subida acentuada do EUR/USD, com um movimento imediato da ordem dos 2-3%.

Print

Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.