Reserva Federal deverá sinalizar subida das taxas de juro em dezembro

Enrique Díaz-Álvarez31/Oct/2016Análise do Mercado de Câmbios

Na reunião de política monetária da Reserva Federal, em setembro, a Presidente do Comité FOMC, Janet Yellen, afirmou que «os argumentos em prol do aumento da taxa de financiamento federal estavam mais fortes».

Muito embora a Fed tenha optado por manter a sua taxa de juro de referência inalterada no intervalo de 0,25%-0,5%, a decisão de não aumentar em setembro saiu vencedora por curta margem, já que três membros do Comité – Esther George, Loretta Mester e Eric Rosengren – votaram a favor de uma subida imediata. O Comité entendeu que a atividade económica tinha acelerado o ritmo moderado observado no primeiro semestre do ano, mas a maior parte dos responsáveis da autoridade monetária preferiu esperar pela divulgação de mais dados sobre o mercado de trabalho e a inflação.

Consideramos que os dados económicos dos EUA têm vindo a melhorar desde o início do segundo semestre, em especial o mercado de trabalho, consolidando assim o cenário de uma subida das taxas da Fed antes do final do ano. Segundo o mais recente relatório do mercado de trabalho, relativo a setembro, a economia norte-americana criou 156.000 postos de trabalho, enquanto a média de 12 meses da criação de emprego em setores não agrícolas permanece acima dos 200.000. O aumento do salário médio continua consistente e bem acima dos 2% (Figura 1).

Figura 1: Salário/hora médio nos Estados Unidos (2011 – 2016)

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Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 26/10/2016

A inflação nos EUA tem igualmente dado sinais encorajadores de subida, tendo começado a diluir-se o efeito da quebra dos preços da energia no índice. A inflação global cresceu para 1,5% em setembro, enquanto a inflação subjacente, que exclui as componentes voláteis da alimentação e da energia, tem permanecido sempre acima da meta de 2% fixada pela Fed ao longo deste ano (Figura 2).

Figura 2: Taxa de inflação nos EUA (2010 – 2016)

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Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 26/10/2016

As declarações dos membros da Reserva Federal, desde a última reunião de setembro, têm sido bastante explícitas no sentido de que um aumento das taxas de juro nos EUA está de facto iminente. Três membros do Comité FOMC – Dudley, Rosengren e Evans – manifestaram o seu apoio a um aumento das taxas em 2016, enquanto o Presidente da Fed de São Francisco, John Williams, defendeu que a Fed deveria ter subido as taxas logo na reunião de setembro.

Por muito possível que seja a Fed decidir a subida das taxas de juro na sua reunião de novembro, na próxima quarta-feira, é mais provável que o banco central adie essa decisão para dezembro. Em primeiro lugar, o Comité FOMC deverá considerar mais indicado esperar pela realização das eleições presidenciais a 8 de novembro, antes de aumentar as taxas de juro pela segunda vez em dez anos. Além disso, o Comité FOMC irá divulgar um conjunto de projeções económicas em dezembro, incluindo um novo gráfico “dot plot”, que reúne as expectativas dos responsáveis pela política monetária relativamente à sucessão de aumentos das taxas nos próximos anos. Os mercados financeiros parecem ser da mesma opinião, já que estão a incorporar menos de 20% de probabilidades de um aumento em novembro e mais de 70% de probabilidades de um aumento em dezembro.

Quanto ao comunicado da Fed na próxima quarta-feira, espera-se que o banco central adote uma postura relativamente mais interventiva, no sentido de preparar o mercado para a possibilidade de uma subida das taxas em dezembro. A Fed deverá destacar a evolução positiva do mercado de trabalho e transmitir uma maior confiança no regresso do valor da inflação à meta estabelecida pela Fed. Antecipamos ainda um crescendo de vozes dissonantes a favor de taxas mais elevadas, ficando assim a Fed cada vez mais próxima do ponto de viragem nesta matéria, com a maioria dos membros do Comité a votar a favor de uma subida imediata das taxas. Esta conjugação de fatores deverá proporcionar um bom suporte para o Dólar norte-americano face a quase todos os seus pares principais.

A crescente divergência nas orientações da política monetária entre a Reserva Federal e quase todos os restantes grandes bancos centrais ressurgiu, nas últimas semanas, como o principal catalisador dos mercados cambiais. O Dólar norte-americano já valorizou para um máximo de nove meses, face ao cabaz ponderado de moedas dos principais parceiros comerciais (Figura 3) e, segundo prevemos, assim deverá prosseguir, à medida que a Reserva Federal retoma o processo de redução gradual da sua política monetária expansionista, iniciado em dezembro de 2015 com o primeiro aumento das taxas em nove anos.

Figura 3: Índice do Dólar dos EUA ponderado pelo comércio (outubro 2015 – outubro 2016)

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Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 26/10/2016

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.