Libra e mercados financeiros em queda após voto do Reino Unido pela saída da União Europeia

Enrique Díaz-Álvarez28/Jun/2016Análise do Mercado de Câmbios

Contas feitas, os eleitores do Reino Unido acabaram por surpreender o consenso dos analistas, votando a favor da saída da União Europeia, com 52% contra 48% dos votos. As repercussões deste resultado inesperado abalaram, na sexta-feira, os mercados financeiros de todo o mundo, forçando os índices acionistas a cair entre 3% e 13%. As ações italianas e espanholas foram as mais penalizadas, com perdas da ordem dos dois dígitos, enquanto os índices das ações norte-americanas resistiram relativamente bem, descendo apenas 3-4%. Os mercados cambiais assistiram a uma volatilidade extrema. A Libra sofreu a maior quebra diária de sempre, perdendo mais de 10% face ao Dólar e 7% face ao Euro. O “greenback” e, em particular, o Iene, foram os mais beneficiados com esta turbulência, tendo valorizado acentuadamente face a quase todas as principais moedas a nível mundial.

O referendo de sexta-feira é, porventura, o acontecimento político mais importante na Europa das últimas décadas. Nunca foi tão difícil fazer previsões. Ambos os partidos políticos – Conservadores e Trabalhistas – estão a viver momentos confusos, depois de o primeiro-ministro ter anunciado a demissão e de a liderança de Corbyn ter sido posta em causa. O lado da saída não tem qualquer tipo de programa comum para gerir o processo de negociação. É, todavia, possível enumerar alguns fatores principais que poderão determinar e condicionar os acontecimentos políticos, económicos e financeiros no curto e médio prazo.

Timing

O Reino Unido continuará a ser membro da UE durante dois anos após notificação ao Conselho Europeu da sua intenção de sair. Tal comunicação ainda não foi feita, nem há indícios de que seja feita em breve. A demissão adiada do Primeiro-Ministro Cameron garante que tal não acontecerá durante os próximos meses e não é certo que alguém do Partido Conservador tenha a vontade e o apoio partidário suficientes para o fazer. A UE não tem meios para forçar a situação. Por conseguinte, é importante realçar que, durante algum tempo, não terão lugar quaisquer mudanças legislativas de relevo.

Escócia

É quase certo que os nacionalistas escoceses vão realizar um segundo referendo se e quando a saída do Reino Unido for formalmente confirmada. As primeiras sondagens confirmam que o apoio à independência da Escócia cresceu desde o referendo ao Brexit. Além disso, a execução do processo de saída, sem a aprovação dos parlamentos da Escócia e da Irlanda do Norte, enfrentaria dificuldades jurídicas significativas. Mais dois fatores que apontam para uma disputa demorada sem quaisquer alterações imediatas.

Repercussões económicas

É evidente o impacto negativo a curto prazo. São poucas as probabilidades de a economia do Reino Unido cumprir os 2% de crescimento que a maioria dos economistas prevê para o resto de 2016, embora, neste momento, seja especialmente difícil prever a taxa de crescimento real. Esperamos uma diminuição expressiva do investimento, nomeadamente no sector da construção, o que será parcialmente compensado pela desvalorização da Libra e pela possível redução do défice da balança comercial. O primeiro indicador fiável do impacto no investimento será conhecido com os resultados dos inquéritos PMI de julho, divulgados na primeira semana de agosto, um período em que podemos contar com uma nova vaga de volatilidade.

Estabilidade financeira

Até ao momento, o sistema financeiro está a resistir razoavelmente bem à turbulência. O Banco de Inglaterra deixou bem claro que está preparado para garantir a estabilidade. Além de uma injeção adicional de liquidez de 250 mil milhões de Libras, está preparado, se necessário, para fornecer Euros, Dólares e Ienes com a ajuda dos bancos centrais correspondentes. Estamos, por isso, confiantes de que não irão ocorrer acidentes financeiros graves que possam piorar uma situação já delicada. Ainda assim, os mercados vão estar muito voláteis nos próximos dias.

Zona Euro

Os mercados cambiais concentraram-se obviamente no impacto do referendo no Reino Unido e na Libra. Consideramos, todavia, que as repercussões na Zona Euro têm sido um tanto subestimadas. Estamos já a assistir, noutros países europeus, a pedidos de realização de um referendo idêntico à saída da UE. Além disso, o desenvolvimento da infraestrutura institucional de apoio ao Euro (mecanismo único de supervisão bancária, regime único de garantia de depósitos, etc.) tornou-se agora consideravelmente mais difícil. Mesmo após a forte desvalorização da semana passada, os níveis atuais do EUR/USD não parecem refletir por completo o agravamento do cenário político, sendo de esperar que a moeda única continue a descer para valores consideravelmente mais baixos do que os atuais, nas semanas e nos meses que se seguem. Os mercados também parecem partilhar desta nossa opinião e, à hora de negociação das bolsas asiáticas, continuaram a penalizar a moeda única face ao Dólar norte-americano.

À semelhança do Reino Unido, o primeiro indicador real das repercussões económicas e financeiras negativas será dado pelos inquéritos de confiança aos investidores e às empresas, cujos resultados serão divulgados em 22 de julho. Continuaremos a mantê-lo informado.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, a consequência imediata do referendo é o afastamento da possibilidade de subida das taxas da Reserva Federal, em junho. Qualquer eventual aumento das taxas, ainda em 2016, depende agora da evolução dos mercados financeiros e da economia mundial no próximo trimestre. Por outro lado, parece-nos que o Dólar se dissociou das expectativas da Reserva Federal para se tornar uma moeda de refúgio. Por conseguinte, não consideramos necessário alterar as previsões positivas para o Dólar, podendo até revê-las em alta, em especial face ao Euro.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.