Receios sobre o Brexit geram perdas na libra, enquanto o dólar se aprecia à espera da reunião da FED.

Enrique Díaz-Álvarez14/Jun/2016Análise do Mercado de Câmbios

Com a aproximação do referendo do Reino Unido à permanência na UE, os resultados das sondagens e as manobras  políticas sobrepõem-se cada vez mais aos dados macroeconómicos e às medidas de política monetária. As sondagens da semana passada, que denotavam um aparente crescimento dos números a favor da saída, causaram uma quebra acentuada da Libra, em particular, e dos ativos de risco, em geral. De realçar que o efeito do referendo também começa a fazer-se sentir de uma maneira mais contida sobre a taxa de câmbio do Euro/Dólar. O Euro parece reagir aos resultados das sondagens, numa evolução equivalente a cerca de 20% do movimento da Libra face ao Dólar norte-americano, o que pode servir de ponto de referência aos operadores do mercado cambial, à medida que a data do referendo se aproxima e a volatilidade aumenta. O Euro foi igualmente atingido pelas notícias divulgadas na quinta-feira de que o BCE está a assumir uma atitude mais agressiva do que se esperava no seu programa de aquisição de obrigações de empresas europeias.

O risco de evento nos mercados financeiros deverá crescer extraordinariamente na segunda quinzena de junho. A agenda da próxima semana começa com

  • A reunião de junho da Reserva Federal: com a possibilidade de uma subida das taxas de juro praticamente posta de parte pelos mercados, as atenções estarão viradas para as declarações do Comité da Reserva Federal (FOMC).
  • Segue-se a reunião do Banco de Inglaterra, sendo de esperar que o Banco reitere que o referendo é, de longe, o maior risco para a economia do Reino Unido.
  • A reunião do Banco do Japão, relativamente à qual divergimos da visão de consenso de que a situação se manterá inalterada e esperamos um reforço da política monetária expansionista.
  • Mais no fim da semana, é a vez de o Banco Nacional Suíço entrar em cena. Em suma, prevê-se uma semana agitada, com um aumento da volatilidade a anunciar a grande incerteza em torno do referendo sobre o Brexit, marcado para a semana seguinte.

Há a registar um fluxo crescente nos dois sentidos do EUR/USD, enquanto compradores e vendedores se apressam a cobrir a exposição ao enorme risco de evento associado a este par – uma decisão que muito recomendamos. Além disso, a relativa resiliência evidenciada pelo Rand atraiu alguns compradores inesperados.

EUR

Na quinta-feira, o BCE anunciou a compra de obrigações de empresas com uma notação inferior à que muitos esperavam, o que intensificou a pressão de descida sobre a moeda única, já pressionada pelas sondagens do referendo do Brexit. As compras de dívida com notação inferior, como obrigações da Volkswagen e da Telecom Italia, efetuadas na semana passada, sugerem que Draghi ainda mantém a atitude de “tudo o que for preciso”. As agendas de política macroeconómica e monetária da próxima semana estão ambas pouco preenchidas. Espera-se que o Euro seja influenciado sobretudo pelas sondagens do referendo no Reino Unido e pela reunião decisiva da Reserva Federal, na quarta-feira.

GBP

Em condições normais, os números surpreendentemente fortes da produção industrial de abril teriam um ligeiro efeito positivo na Libra. No entanto, nas semanas que se avizinham, nada mais importa a não ser os resultados do referendo de 23 de junho. Desde quinta-feira que a Libra está em queda, na sequência da publicação de sondagens que dão uma clara vantagem aos partidários da “Saída”. Importa notar, todavia, que as casas de apostas ainda atribuem menos de 1/3 de probabilidades à vitória da “saída” e que o nosso indicador preferencial, o agregador de sondagens Number Cruncher, atribui uma probabilidade de menos de 1/4 ao Brexit, mesmo considerando as sondagens das últimas semanas. A entrevista ao defensor da “saída”, Michael Gove, agendada para esta quarta-feira, implicará uma atenção redobrada a qualquer estudo de opinião publicado nos dois dias seguintes.

USD

Após a recuperação da semana passada, sustentada pelo afluxo de capitais aos ativos de refúgio, o Dólar enfrenta um teste decisivo na próxima quarta-feira, data da reunião de junho da Reserva Federal. Na expectativa de uma quase certa manutenção das taxas inalteradas, a Fed deverá reiterar que todas as futuras reuniões, a partir de julho, mantenham em aberto a possibilidade de uma subida. Também esperamos que o famoso dots plot, o gráfico que sintetiza a expectativa da evolução futura da política monetária, não apresente grandes alterações em relação ao publicado na reunião de março. Por fim, contamos com uma avaliação não comprometedora do estado da economia, registando tanto o abrandamento dos últimos números do emprego como o tom geralmente positivo dos restantes dados macroeconómicos, por forma a deixar em aberto as opções de subir ou manter as taxas em julho e esperar pelos dados determinantes do mercado de trabalho de junho para tomar essa decisão.

SUÍÇA

Os receios de um Brexit e a crescente aversão generalizada ao risco conduziram a uma valorização súbita do Franco face ao Euro, que quase atingiu o máximo do seu intervalo do último ano, cerca de 1,08. Esta evolução torna a reunião do Banco Central Suíço, na próxima semana, ainda mais decisiva. A comunicação verbal deverá assumir um tom ainda mais explícito do que as anteriores declarações trimestrais e, em nosso entender, o Franco não poderá subir muito mais acima dos 1,08, sem uma intervenção significativa do banco central no mercado cambial.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.