O Real em 2016: análise e previsão da economia e da moeda brasileira

Enrique Díaz-Álvarez17/May/2016Análise do Mercado de Câmbios

Real Brasileiro (BRL)

Os mercados de divisas continuam a centrar-se nas lacunas da política económica geradas nas principais áreas económicas. Temos a Reserva Federal norte-americana em vias de aumentar as taxas de juros pela segunda vez em 2016, após a escalada das suas taxas em dezembro, com o Banco de Inglaterra a subir igualmente no último trimestre de 2016, desde que o referendo produza um resultado  a favor da permanência. Em contrapartida, a maioria dos outros bancos centrais do G10, em particular o BCE, permanecem opressivamente em modo de abrandamento.

A combinação do aperto monetário esperado da Reserva Federal norte-americana e as quedas acentuadas intimamente ligadas aos preços das matérias-primas provocaram uma liquidação acentuada nas divisas da maioria dos mercados emergentes, nos meses de janeiro e fevereiro, particularmente naquelas dos países exportadores de matérias-primas. Contudo, a estabilização dos preços das matérias-primas, desde aí, fez com que a maioria conseguisse recuperar gradualmente.

Em consonância com as nossas previsões, o Real brasileiro (BRL) volátil recuperou este ano até agora, tendo-se desvalorizado fortemente após um 2015 difícil, que resultou numa das mais acentuadas depreciações de qualquer moeda do mercado emergente (Figura 1). O Real perdeu mais de 30 % do seu valor em relação ao Dólar norte-americano entre um fraco desempenho económico e a incerteza política que teve um peso considerável na posição relativamente à moeda.

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 12/05/2016

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 12/05/2016

 

O conflito político no Brasil tem aumentado nas últimas semanas e a presidente Dilma Rousseff enfrentou, agora, a destituição após uma pesada derrota numa votação do Senado em maio. Dilma Rousseff, que viu a sua popularidade cair a pique durante a pior recessão em décadas, enfrenta acusações de manipulação das contas do governo em 2014.

A economia brasileira sofreu, no 4º trimestre de 2015, uma contração de 5,9 % e de uns significativos 3,8 % durante todo o ano de 2015 (Figura 2). A produção industrial e a extração de minérios foram particularmente atingidas, ambas sofrendo diminuições superiores a 6 % no meio da recente queda a pique dos preços globais das matérias-primas.

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 12/05/2016

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 12/05/2016

 

As elevadas taxas de juros, a inflação crescente e o conflito político têm pesado no investimento e ditaram a forte contenção do consumo. Este ano, as previsões de crescimento do FMI para o Brasil estão entre as piores do mundo, com a expectativa de que a economia sofra uma nova contração revista em baixa para 3,8 % em 2016, que assinalaria a sua pior recessão em mais de um século.

O défice orçamental do país aumentou drasticamente sob a liderança de Dilma Rousseff, subindo a máximos históricos em 2015, para o equivalente a 10,5 % do PIB global, ao passo que o desemprego está no nível mais elevado de há mais de seis anos. A Moody’s tornou-se igualmente na terceira maior sociedade de notação de risco de crédito a descer a notação do Brasil para a classificação de lixo em fevereiro, ainda com uma perspetiva negativa, sugerindo que podem ocorrer novas descidas.

É encorajador o fato de a inflação começar a abrandar novamente, tendo subido para um máximo de 13 anos, de 10,7 % no início do ano. O crescimento global do preço no consumidor caiu para 9,3 % em abril, o seu nível mais baixo em dez meses, apesar de estar bastante acima da meta.

O Banco Central do Brasil acumulou igualmente um vasto tesouro de reservas cambiais durante os anos de força do Real, totalizando o equivalente a quase 20 meses de cobertura das importações. Este cofre dá às autoridades brasileiras um espaço considerável para intervir nos mercados de divisas de modo a estabilizar o Real e impedir outra desvalorização excessiva.

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 12/05/2016

 

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 12/05/2016

 

Ao mesmo tempo que os cenários macroeconómico e político são, a nosso ver, pobres, existem três fatores que suportam o Real.

  • As taxas de juros permanecem altas e bastante acima do nível de inflação, o que significa que as taxas do Real estão confortavelmente positivas e em cerca de 4 %. Num mundo de taxas de juros muito baixas, o Real oferece uma proposta atraente aos investidores.
  • A valorização do Real continua a ser muito barata o que, juntamente com a queda das importações, ajudou a cortar o défice em conta corrente do Brasil para quase metade em apenas um ano.
  • Os preços das matérias-primas parecem ter estabilizado e até mesmo iniciado uma recuperação modesta.

A nossa visão de que a depreciação do Real no ano passado foi excessiva tem sido validada até agora em 2016, sendo o Real uma das divisas com melhor desempenho no mundo, no 1º trimestre do ano. Os fatores de apoio significativos para o Real devem garantir que esta tendência continua, e esperamos que a moeda continue a fortalecer-se em relação ao Dólar norte-americano este ano, antes de estabilizar em 2017.

As medidas de abrandamento monetário em grande escala lançadas pelo Banco Central Europeu na Zona Euro devem garantir uma valorização ainda mais acentuada do Real em relação ao Euro, este ano.

USD/BRL EUR/BRL GBP/BRL
Q2-2016 3.65 3.9 5.2
Q3-2016 3.45 3.55 5.05
E-2016 3.4 3.35 4.95
Q1-2017 3.4 3.25 4.95
E-2017 3.4 3.25 4.95

 

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Written by Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.