O Yuan em 2016: análise e previsão da economia e da moeda chinesa

Enrique Díaz-Álvarez12/May/2016Análise do Mercado de Câmbios

O mercado de câmbios continua a focar-se nas brechas que a política monetária deixou em aberto em todas as principais áreas económicas. Acreditamos que a Reserva Federal norte-americana está no bom caminho para proceder a dois aumentos das taxas de juro em 2016, após a subida que levou a cabo em Dezembro, com o Banco de Inglaterra a também equacionar um aumento no final do trimestre em 2016. Por sua vez, a maioria dos bancos centrais dos países do G10, em particular o BCE, permanecem, na sua maioria, com políticas de flexibilização.  

A combinação de uma política monetária da Reserva Federal mais restritiva e as quedas acentuadas dos preços das matérias-primas causaram uma desvalorização das moedas da maioria dos mercados emergentes entre Janeiro e Fevereiro, particularmente no caso dos países exportadores de commodities. No entanto, a recente estabilização do preço das commodities gerou uma recuperação parcial.

Desvalorização do CNY

Após ter permanecido vinculado ao Dólar norte-americano durante muitos anos, o Banco da China (PBoC) adotou recentemente um cabaz de divisas cujo peso relativo de cada uma das moedas se estabelece de acordo com a importância das mesmas para o mercado chinês. Por outro lado,  além de se manter a par com este cabaz de moedas, numa perspectiva de, a médio prazo, o Banco da China intervir para impedir que haja movimentações diárias acentuadas (superiores a 2%) face ao Dólar.

Desde a desvalorização do Yuan em Agosto do ano passado, quando a taxa de fixação se moveu para cerca de 3% face ao USD em apenas uma semana, a moeda sofreu uma depreciação acentuada face ao Dólar.

O Yuan caiu para a sua pior posição em cinco anos no início de 2016, contudo, recuperou em  linha com  o enfraquecimento do Dólar e devido à estabilização dos mercados financeiros chineses (imagem 1).

 

Imagem 1: Evolução histórica do USD/CNY (2011 – 2016)

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 06/05/2016

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 06/05/2016

 

Abrandamento económico

A recente desvalorização do CNY surge no âmbito de um um forte abrandamento económico na China.

Em 2015,  o crescimento económico caiu para o seu nível mais baixo em 20 anos (Imagem 2), com a  China a ser ultrapassada pela Índia como o país de crescimento mais rápido entre as maiores economias do mundo.

A economia cresceu 6,7% este ano e estima-se que cresça apenas 6,2% em 2017, muito abaixo da meta dos 7% estipulada pelo banco central.

Imagem 2: Crescimento anual do PIB da China  (2011 – 2016)

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 06/05/2016

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 06/05/2016

 

Tanto o crescimento da produção industrial como das vendas a retalho abrandou, enquanto que a  força relativa do Yuan face às moedas dos principais parceiros comerciais da China afundaram as exportações em mais de 25% ao ano em Fevereiro, no que foi o seu maior  decréscimo em quase 7 anos.

Intervenção do banco central

Numa tentativa de estimular a enfraquecida economia chinesa, o banco central foi forçado a levar a cabo uma série de cortes nas taxas de juro. A taxa de juro de referência foi reduzida em 25 pontos base para 4,35% em Outubro, ao que se soma a continuação de abrandamento económico que  irá pressionar o Banco  da China para aumentar ainda mais as suas políticas de estímulos económicos.

As reservas do mercado de câmbios na China também estão em queda, com as autoridades chinesas a vender dólares para suportar o Yuan e  a estancar a saída de capitais. As reservas de moeda estrangeira caíram quase um terço nos últimos 18 meses, para mínimos de há quase 5 anos. (Imagem 3).

Imagem 3: Reservas de moeda estrangeira na China (2011 – 2016)

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 06/05/2016

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 06/05/2016

 

Fatores económicos positivos

No entanto,  o Yuan  acabou por ser em certa medida beneficiado  pela estabilização dos mercados financeiros chineses após termos assistido a uma desvalorização na bolsa ao longo da segunda metade de 2015.

  • Acreditamos que houve um foco excessivo na China no recente declínio da bolsa e não esperamos que isto cause nenhuma desvalorização significativa do Yuan chinês, dado que apenas 20% da riqueza chinesa se encontra investida em acções.
  • Após ter sofrido uma queda acentuada, as reservas de moeda estrangeira também estabilizaram, refletindo os efeitos de valorização provenientes do enfraquecimento do Dólar e também um abrandamento da saída de capitais, uma vez que as autoridades chinesas reforçaram o seu controlo.
  • Por outro lado, os dados económicos surpreenderam pela positiva, incluíndo os sólidos indicadores de sentimento económico PMI e  crescimento do PIB que supera as estimativas iniciais para o primeiro trimestre do ano.

Deste modo, continuamos a acreditar que um dos objetivos das autoridades chinesas a longo prazo é a internacionalização cada vez maior do Yuan como meio de troca e armazenamento de valor.  Qualquer desvalorização acentuada iria questionar a confiança na moeda chinesa e, em última instância, seria contraproducente. Paralelamente, um Yuan enfraquecido, iria contrariar o objetivo de reequilibrar a economia chinesa, longe do investimento e em direção ao consumo doméstico.

Por estes motivos continuamos a crer que as autoridades chinesas irão continuar focadas em manter o Yuan estável face ao cabaz as moedas, em termos médios.

O que reserva o futuro para o CNY?

Com as divergências das orientações das políticas monetárias entre o Banco do Japão, o Banco Central Europeu e a Reserva Federal, que deverão cotar o Iene e o Euro abaixo do Yuan, antevemos apenas perdas graduais para o CNY face ao Dólar norte-americano em relação aos níveis atuais.

 

CNY previsiones. Mayo 2016

 

 

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.