Decisões do BCE e referendo ao Brexit continuarão a condicionar mercados de câmbios e condições financeiras ao longo dos próximos meses

Enrique Díaz-Álvarez29/Mar/2016Análise do Mercado de Câmbios

A semana da Páscoa, geralmente calma nos mercados de câmbios, permite-nos antever as semanas seguintes. Como já se tem vindo a verificar há algum tempo, cremos que os mercados de câmbios dos G10 serão condicionados por dois fatores. Em primeiro lugar, pelas decisões do Banco Central Europeu e pela subida da taxas de juro da Reserva Federal em 2016. Em segundo lugar, acontecimentos políticos. O mais óbvio é, claramente, o referendo para a saída do Reino Unido da UE (Brexit), mas a incerteza política na Zona Euro está a aumentar e provavelmente a desagradar a quem faz transações e aos decisores políticos na área dos negócios.

Por sua vez, a recuperação da maioria dos mercados emergentes ganhou novo fôlego na semana passada, mas os níveis mais baixos em que muitos deles ainda negoceiam fazem-nos crer que a reuperação irá continuar nas próximas semanas.

EUR

O BCE não conseguiu cumprir os seus objectivos de inflação durante os últimos oito anos e as suas próprias previsões praticamente desistiram de tentar acertar quando a inflação iria regressar à sua meta. Enquanto as pressões no BCE se acumulam, os anúncios da inflação mensal na Zona Euro estão a tornar-se cada vez mais críticos para a direcção que esta irá seguir. Na próxima quinta-feira, os anúncios serão muito importantes, principalmente dada a surpresa negativa a que assistimos na semana passada. Acreditamos que o momento calmo que os mercados de câmbios atravessam constitui uma boa oportunidade para cobrir os riscos do euro, antes de um evento de risco. Outra surpresa negativa na inflação irá levar os mercados a esperar novos cortes na taxa de depósito, o que terá um grande impacto na depreciação do Euro.

GBP

Ainda que o relatório da inflação e vendas a retalho da semana passada tenha sido mais ou menos o que se esperava, a Libra continuou a ser negociada com base na possibilidade de uma saída do Reino Unido da União Europeia. A reação negativa da moeda aos atentados em Bruxelas (que poderão aumentar a possibilidade de Brexit), é um bom exemplo desta realidade. Nos mercado de apostas, a probabilidade de Brexit, aumentou ligeiramente para cerca de 30% e a Libra retraiu-se um pouco. Nas próximas semanas, sem mais ataques, esperamos que ambos mudem a sua trajectória. Independentemente das taxas, a sondagem para o Brexit continuará a ser o melhor indicador para as movimentações da Libra, pelo menos entre reuniões do Banco Central Europeu.

USD

Tal como na Zona Euro, a data de anúncio da inflação nos EUA começou a ofuscar o relatório do Emprego, como grande fonte de referência para os mercados e para a Reserva Federal. A informação anunciada hoje esteve ligeiramente abaixo do esperado mas, no entanto, com uma inflação de base  de 1,7% (à exceção dos alimentos voláteis e dos componentes de energia)  permanecemos a uma curta distância da meta de 2%  da FED, o que faz com que este seja um banco único dentro dos Bancos Centrais e, claro, uma razão chave pela qual é o único Banco a aumentar as taxas.

Posto isto, o relatório de pagamentos de sexta-feira continua a ser fundamental para o dólar norte-americano. Com a inflação europeia dada a conhecer no dia anterior, terça e quarta-feira trazem uma boa janela de  oportunidade para a cobertura da exposição de risco ao Euro-Dólar e para evitar a volatilidade deste período festivo.

A médio prazo, os indicadores chave para a retoma de crescimento do Dólar continuarão a ser a comunicação dos membros da Reserva Federal, ao clarificarem as ambiguidades das declarações de Março, bem com o progresso da inflação de base em direção à meta de 2% da FED.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.