Euro sob pressão enquanto os mercados financeiros aguardam estímulos do BCE

Enrique Díaz-Álvarez08/Mar/2016Análise do Mercado de Câmbios

Os mercados financeiros mundiais estão neste momento a seguir de perto os anúncios do Banco Central Europeu que ocorrerão este mês nos Estados Unidos e, mais proximamente, na Zona Euro.

No seu encontro mais recente para discutir política monetária, o Banco Central Europeu (BCE) validou inteiramente as nossas expectativas para a criação de mais estímulos na primeira metade de 2016. Embora  o Presidente do BCE, Mario Draghi, não tenha anunciado nenhumas medidas  nesse encontro, sugeriu fortemente que um estímulo adicional poderia ser já anunciado na reunião desta quinta-feira, 10 de março.

Draghi afirmou que as perspectivas de inflação tinham piorado “significativamente” desde a reunião de dezembro, face à descida do preço do petróleo. E também expressou a sua preocupação pelos “efeitos secundários”, incluíndo a queda das pressões salariais, com a volatilidade nos mercados financeiros que a China tem induzido, aumentando os riscos de deterioração da economia da Zona Euro.

Draghi reiterou que “não há limites” para a actuação dos legisladores dentro do seu mandato, numa altura em que o BCE “revê” o seu programa de estímulos existente na reunião  do Banco Central em Março.

A antecipação de mais políticas monetárias na Zona Euro já baixou o Euro 4%  face ao Dólar norte-americano desde meio de fevereiro (Gráfico 1).

 

Gráfico 1: EUR/USD (fevereiro 2016 – março 2016)

 Grafico 1_eurusd

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 07/03/2016

 

A melhoria de posicionamento da moeda única na primeira metade de fevereiro deveu-se, essencialmente e na nossa opinião, a uma pequena correcção causada pela grande força que o dólar tem vindo a demonstrar. Contudo, a retoma da tendência de queda do Euro era inevitável .

Desde a reunião de janeiro do BCE que as condições económicas continuaram a piorar. A Zona Euro voltou a deflacionar-se em fevereiro após a inflação global dos preços no consumidor ter mergulhado para abaixo de zero, com -0,2% ao ano. A inflação subjacente mais estável também caiu uns expressivos 0,3% para 0,7% (Gráfico 2), enquanto que os preços  dos produtores permanecem em território negativo.

 

Gráfico 2: Taxa de Inflação da Zona Euro (2013 – 2016)

Gráfico 2- Taxa de Inflação da Zona Euro (2013 - 2016)

Fonte: Thomson Reuters Datastream Data: 04/03/2016

 

Todos os principais indicadores de sentimento económico PMI (obtido por inquérito aos gestores de compras das empresas e que mede a atividade industrial em cada país nos próximos meses) caíram durante três meses consecutivos. O índice composto desceu para 52,7 no mês passado, na sua terceira queda consecutiva. Estes índices são talvez o indicador mais preciso acerca da Zona Euro e o seu fraco desempenho irá certamente fortalecer a posição de Draghi no encontro de Março com o conservador Bundesbank.

Estamos de acordo com o consenso de que o BCE irá reforçar as suas medidas de estímulo no encontro de 10 de Março. Esperamos uma redução adicional de 10 pontos base na taxa de depósito, já em território negativo de -0,3% com a forte probabilidade de uma expansão dos existentes 60 mil milhões de Euros por mês no programa de QE. Poderemos, talvez, assistir também a medidas para suportar o sistema bancário, numa perspectiva regulatória e de necessidade de capital.

A recente onda de notícias económicas negativas, a par dos comentários pessimistas do Presidente Draghi, demonstra que os estímulos adicionais deste mês já estão definidos. A falta de ação será vista como decepcionante e exercerá pressões significativas no Euro, que é a última coisa que a Zona Euro precisa neste momento.

Não acreditamos que Draghi possa decepcionar os mercados. Por esse motivo, esperamos que o Euro saia significativamente mais fraco do que atualmente, face à Libra, e mais baixo face ao Dólar, atingindo a paridade em algum momento do terceiro trimestre deste ano.

A reunião do BCE desta quinta-feira é vista como um evento de risco para o par EUR/USD, pelo que deveremos estar atentos à evolução das moedas.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.