O que esperar da reunião de abril do BCE

Enrique Díaz-Álvarez23/Apr/2018Análise do Mercado de Câmbios

O Banco Central Europeu (BCE) vai reunir-se em Frankfurt esta quinta-feira, com os investidores atentos a qualquer sinal indicativo de que o programa de compra de ativos do banco poderá terminar no final do ano.

Na última reunião, em princípios de março, o Presidente Mario Draghi desencadeou uma queda abrupta do Euro ao falar dos riscos negativos e reiterar a necessidade de uma política monetária flexível, mencionando os riscos decorrentes de um Euro mais forte e as ameaças do protecionismo. O banco central emitiu igualmente uma ligeira revisão em baixa das suas previsões de inflação a longo prazo, sugerindo assim que não se sente pressionado para começar a ponderar a necessidade de uma política monetária mais restritiva.

Consideramos que, na reunião do corrente mês, o Banco Central Europeu optará por manter o tom bastante cauteloso no que diz respeito à orientação futura da política monetária. Desde a última reunião do Conselho de Governadores em março, os dados macroeconómicos publicados para a Zona Euro têm sido fracos, enquanto os riscos externos, nomeadamente a possibilidade de uma guerra comercial à escala global, poderão pesar sobre as expectativas.

Após o período mais rápido de expansão em dez anos, no ano de 2017, a economia da Zona Euro parece estar a estagnar desde o início de 2018. Os dados PMI mensais referentes à atividade das empresas têm saído muito abaixo das expectativas e, embora permaneçam confortavelmente acima do nível determinante de 50 pontos, existem sinais de que o crescimento global poderá abrandar no primeiro trimestre. O PMI compósito, que representa o índice ponderado dos setores da indústria transformadora e dos serviços, não passou dos 55,2 pontos em março, o seu nível mais baixo desde janeiro de 2017, só dois meses depois de ter atingido um máximo de doze anos, com 58,8 pontos. Os indicadores de sentimento económico demonstraram também que a confiança na Zona Euro é reduzida, enquanto a produção industrial tem vindo a contrair nos últimos três meses consecutivos pela primeira vez desde 2012.

Um fator muito mais preocupante para os responsáveis do BCE será a falta de pressão inflacionária na Zona Euro. A inflação subjacente, o melhor indicador da evolução futura da inflação, tem estado especialmente fraca, não tendo conseguido chegar aos 2% pelo sexto mês consecutivo em março. Quanto ao índice total de inflação, registou-se um ligeiro incremento para 1,3%, embora também tenha ficado aquém das expectativas do consenso de 1,4% e ainda bastante abaixo da meta “próxima, mas abaixo de 2%” fixada pelo banco central. É possível constatar a recente série de dados macroeconómicos aquém das previsões referentes à Zona Euro no índice de surpresa económica CESI calculado pelo Citi, que desceu abruptamente desde março e está atualmente no seu nível mais baixo desde junho de 2012.

O banco central não deverá atualizar as projeções económicas, incluindo as previsões de crescimento e de inflação, até à reunião de junho. Esperamos, no mínimo, que o Presidente Mario Draghi reconheça os fracos dados apresentados durante o primeiro trimestre, em especial os números consistentemente abaixo da meta na inflação subjacente. Poderá igualmente assinalar o cenário mundial menos favorável desde março, num contexto de crescente tensão nas relações comerciais entre os EUA e a China, e o clima de constante incerteza em torno da presidência de Donald Trump em geral.

Somos, igualmente, de opinião que o BCE não se sente pressionado a sinalizar que está preparado para retirar os instrumentos não convencionais de política monetária em curso, como são as taxas de remuneração negativas e o programa de compra de ativos. Tendo em conta que as expectativas macroeconómicas se agravaram manifestamente desde a última reunião, o Conselho de Governadores evitará sinalizar prematuramente a retirada dos estímulos monetários, sob pena de desencadear uma forte subida do Euro. Os responsáveis da política monetária mantêm-se, em geral, contrários a uma moeda forte, dado o impacto negativo na competitividade das exportações da área do Euro.

À luz dos recentes dados macroeconómicos, consideramos que poderá estar a ser ponderada mais uma curta extensão do prazo do programa de estímulos monetários do banco central após setembro. Antevemos boas probabilidades de o programa ser prorrogado até dezembro de 2018, podendo estar previstas reduções graduais do montante mensal das compras de ativos. Como já aqui mencionámos, entendemos que o aumento das taxas de juro de referência ainda vem muito longe e a saída protelada do programa de estímulos monetários poderá diferir ainda mais o momento da primeira subida dos juros.

Por outro lado, não antecipamos para já qualquer anúncio concreto de mudança da política monetária, pelo que não prevemos alterações na orientação futura, na reunião desta semana. A falta de orientações futuras e uma nova avaliação moderada por parte do Presidente Draghi poderão resultar dececionantes para grande parte do mercado, o que poderá pressionar uma descida do Euro logo após a conferência de imprensa de quinta-feira.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.