O que esperar da reunião de março da Reserva Federal

Enrique Díaz-Álvarez19/Mar/2018Análise do Mercado de Câmbios

É dado praticamente como garantido que a Reserva Federal dos EUA irá anunciar um novo aumento do intervalo de fixação das taxas de juro diretoras (federal funds rate), na próxima quarta-feira, naquele que poderá ser o primeiro de quatro aumentos de 25 pontos base dos juros no país em 2018.

Os mercados financeiros já estão a descontar na totalidade um novo aumento das taxas de juro, na sequência da série de comentários recentes nesse sentido, proferidos por diversos membros do Comité FOMC, incluindo o recém-nomeado Presidente, Jerome Powell, que tomou posse como Presidente do banco central em fevereiro. O sucessor de Janet Yellen adotou um tom muito interventivo (“hawkish”) durante a audição bianual perante o Congresso, em Capitol Hill, no mês passado, tendo declarado que os ventos contrários às perspetivas de crescimento têm vindo a “transformar-se em ventos favoráveis” desde dezembro. Deixou também o aviso de que a Reserva Federal não irá permitir o sobreaquecimento da economia norte-americana e assinalou que a Fed mantém a expectativa de aumentar as taxas por diversas vezes, ao longo do ano.

Com o mercado de futuros sobre as taxas da Fed a atribuir já 100% de probabilidades a um aumento das taxas de juro, na reunião de 21 de março deste banco central, o Dólar dos EUA será sobretudo influenciado pelo tom das declarações de Jerome Powell na conferência de imprensa e, talvez mais significativamente, pelo gráfico “dot plot” atualizado da Fed. Consideramos que existe um conjunto de fatores, verificados desde a reunião do FOMC de dezembro, quando o banco central decidiu o último aumento dos juros e divulgou as suas projeções económicas trimestrais, que poderá dar azo a uma ligeira revisão em alta das previsões para a evolução das taxas de juro diretoras.

Em primeiro lugar, em fins de dezembro, Donald Trump foi finalmente capaz de fazer aprovar o muito aguardado plano de redução fiscal, que muitos acreditavam poder conduzir a uma aceleração do crescimento da economia norte-americana no corrente ano. No entendimento de alguns analistas, essa redução fiscal, nomeadamente uma descida significativa dos impostos sobre as empresas, poderia adicionar 0,5% ao PIB total em 2018. A escalada das tensões comerciais apresenta um certo risco para as perspetivas, mas – em nosso entender – sem um impacto relevante nas projeções de subidas das taxas da Fed.

Além disso, o mercado de trabalho norte-americano tem vindo a fortalecer-se mês após mês. O número de pedidos de subsídio de desemprego quase atingiu o nível mínimo dos últimos 50 anos, a taxa de desemprego está no nível mais baixo desde 2001, enquanto a criação líquida de emprego superou os 300 000 postos de trabalho em fevereiro, pela primeira vez em mais de ano e meio. O crescimento do salário médio também evoluiu positivamente, situando-se agora bem acima do nível da inflação subjacente. Será interessante observar se a Fed irá fazer alguma referência ao pleno emprego, ou seja, o nível estimado abaixo do qual o número de desempregados não pode descer, sob pena de criar pressões inflacionárias. Até agora, a descida acentuada da taxa de desemprego para mínimos dos últimos 16 anos parece ter tido apenas um impacto muito ligeiro no crescimento dos salários.

O gráfico “dot plot” de dezembro do Comité FOMC, representativo das expectativas de cada membro do Comité para o nível das taxas no final de cada ano, mostra que estes responsáveis antecipam uma média de três subidas dos juros nos EUA, este ano. Consideramos que existe uma probabilidade razoável de que os fatores de melhoria das perspetivas, acima indicados, poderão implicar uma revisão em alta desta média para quatro aumentos das taxas em 2018, com a antecipação de três ou quatro subidas em 2019. Tal constituiria um ritmo significativamente mais rápido do que aquele que o mercado está agora a descontar. Não obstante a subida observada nos últimos meses, o mercado de futuros sobre as taxas da Fed só está a atribuir cerca de 25% de probabilidades de pelo menos quatro aumentos das taxas diretoras norte-americanas, este ano.

A nossa expectativa é de que a Fed adote uma orientação mais restritiva para a política monetária, na primeira reunião presidida por Jerome Powell. Assim, deverá continuar a destacar a força do mercado de trabalho e o objetivo de estabilização da inflação perto da meta de 2%, a médio prazo. Qualquer declaração sobre o efeito do plano de redução de impostos e das políticas protecionistas de Donald Trump sobre a atividade em geral será objeto de forte escrutínio, embora, em nosso entender, a Fed deva reiterar que os riscos para as perspetivas económicas estão “praticamente equilibrados”. Como já aqui se referiu, também antecipamos boas probabilidades de uma revisão em alta do gráfico “dot plot”, que aponte para uma média de quatro aumentos das taxas de juro em 2018. Entendemos que uma revisão em alta das projeções de subidas dos juros poderia surpreender os mercados e impulsionar uma valorização acentuada do Dólar dos EUA logo após o anúncio.

Em nossa opinião, os mercados cambiais continuam a sobrevalorizar o crescimento surpreendente da Zona Euro e a subvalorizar o alargamento dos diferenciais entre as taxas da Reserva Federal e do Banco Central Europeu. Um sinal concreto de que a Fed poderá estar prestes a elevar as taxas de uma forma mais agressiva do que se antecipava, alargaria ainda mais estes diferenciais de taxas e poderia, em nosso entender, relançar uma recuperação do Dólar dos EUA face à moeda única.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.