Questões políticas penalizam Dólar enquanto forte crescimento suporta ações e matérias-primas a nível mundial

Enrique Díaz-Álvarez29/Jan/2018Análise do Mercado de Câmbios

Na semana passada assistiu-se à continuação das tendências que têm vindo a desenvolver-se neste início de 2018: o Dólar em queda face à maior parte das moedas, enquanto os ativos de risco, em geral, valorizam, fazendo muitos mercados acionistas, em todo o mundo, atingir máximos históricos, quase todos os dias. Entre as moedas principais, destacaram-se a Libra e (com surpresa) o Franco suíço. Nos EUA, a política continuou a sobrepor-se aos dados positivos do crescimento. Ainda mal tinha terminado a paralisação do Governo federal, já o Secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, quebrava uma tradição norte-americana ao sugerir que um Dólar mais fraco é benéfico. A reunião do Banco Central Europeu (BCE) criou muita volatilidade, mas o tom equilibrado de otimismo cauteloso da comunicação acabou por manter o Euro mais ou menos no nível em que se encontrava antes da conferência de imprensa.

Esta semana, são vários os eventos suscetíveis de oferecer um suporte mínimo ao Dólar após as suas recentes dificuldades. Na segunda-feira, a taxa de inflação ou deflator do consumo privado (um indicador chave para as previsões da Reserva Federal) poderá surpreender as expectativas pessimistas que apontam para um número baixo. Na quarta-feira, a reunião da Fed poderá dar azo a mais comentários otimistas sobre a economia norte-americana e a perspetiva de subida dos salários e da inflação. Por último, a publicação do relatório com os dados do emprego, na sexta-feira, deverá confirmar a força do mercado de trabalho nos EUA. No outro lado do Atlântico, a ser publicada mais uma taxa de inflação dececionante para a Zona Euro, é possível que o Euro inverta a tendência.

EUR

Na passada semana, a mensagem que tanto o BCE como o seu Presidente, Mario Draghi, transmitiram, manteve a orientação expansionista. Embora se tenha confirmado e aplaudido o crescimento mais forte da economia, Draghi reiterou que ainda não são percetíveis quaisquer pressões na inflação. Mais importante ainda, chegou mesmo a afirmar que, ao contrário das expectativas do mercado, as probabilidades de uma subida das taxas de juro este ano são praticamente nulas. Ainda assim, o Euro, com a reação inicial dos mercados cambiais, atingiu máximos dos últimos anos para, na sexta-feira, acabar por ceder todos os ganhos obtidos após a reunião do BCE.

O destaque desta semana vai para a publicação dos dados provisórios da inflação de janeiro. As estimativas do mercado indicam uma pequena melhoria na inflação subjacente, para uma taxa anualizada de 1%. Em nossa opinião, existe uma probabilidade significativa de este ser mais um mês de taxa inferior a 1%.

GBP

A Libra Esterlina teve o suporte dos dados positivos do relatório do mercado de trabalho, que evidenciaram um desemprego estável mas baixo, de 4,3%, uma subida desejável dos salários e níveis surpreendentemente elevados de criação de emprego. Por outro lado, o fraco crescimento económico não acalmou as preocupações a longo prazo com o nível baixo de produtividade. No entanto, no curto prazo, as surpresas positivas nos dados económicos, a perspetiva de uma subida das taxas por parte do Banco de Inglaterra e o tom mais moderado das declarações sobre o Brexit têm tido um efeito estimulante na Libra, que apresenta, desde o início do ano, o melhor desempenho entre as moedas do G10, excluindo a Coroa norueguesa.

USD

A última reunião da Reserva Federal para a Presidente Janet Yellen, esta quarta-feira, não deverá trazer grandes alterações. Espera-se que os membros do Comité FOMC ajustem o respetivo discurso de modo a contemplar a evolução positiva da economia, e pouco mais. Muito mais importante será a publicação dos dados da inflação (deflator do consumo privado), na segunda-feira, e do relatório do mercado de trabalho referente ao mês de janeiro, na sexta-feira. Quanto aos primeiros, é bem possível que a taxa de inflação subjacente, excluindo as componentes voláteis da alimentação e da energia, supere as expectativas. Quanto ao segundo, também se espera uma surpresa positiva, em especial no que se refere ao crescimento anual dos salários, que deverá ser da ordem dos 2,7% anualizados.

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Escrito por Enrique Díaz-Álvarez

Diretor de Risco da Ebury. Responsável pela gestão estratégica e análise do mercado de câmbios para a empresa e seus clientes. Enrique é reconhecido pela Bloomberg como um dos analistas mais precisos e exactos nas suas previsões de câmbios.